Guns'n'Roses:
até quando esperar?

Rodrigo Fernandes
Eu me lembro do Guns n`Roses, claramente. Meus coleguinhas ligados nas 17 vozes de Axl Rose e as meninas nos lenços Versace que o cara usava na cabeça, a umidade das calcinhas também não ficava impune.Eh, todas sonhavam em dar para o cara e era desmoralizante saber que um sujeitinho a 2 mil quilômetros de distância embaçava nossa já nula vida sexual. Mas tudo bem, no fim das contas todo mundo sabia cantar Sweet Child Ò`Mine e era o que de fato importava, a tribo. Eu gostava de ouvir o Slash, sempre achei o cara um bom guitarrista, até hoje. Isso não tem dez dias, mas quase vinte anos, e a memória me belisca para a grandeza daquilo tudo. A banda era de fato alguma coisa grande, onipresente. Em todas as camisetas, em todas as estações de rádio, em todas as rodas de violão, em todas as fitas cassetes basf só dava Guns n` Roses.
A bem da verdade o Guns já chegou metendo o pé na jaca. Em 87 com seu primeiro LP Appetite for Destruction vendendo de cara 7 milhões de bolachas - chegaria a 15 - a banda, como um desfibrilador gigante, deu uma reanimada ao anêmico e semi-morto cenário de Hard Rock, gerando instantaneamente milhões de clones e influenciando zilhões de cabecinhas ocas no mundo inteiro. É claro que todo esse qüiproquó veio seguido dos clichês clássicos do establishment rock system: Álcool, estádios lotados, declarações enfezadas, canções polêmicas (One a Million, falava, textualmente, em "negros, imigrantes e bichas"), fotógrafos de olho roxo, cocaína, mulheres de beiço inchado, prisões, heroína, dezenas de quartos de hotéis demolidos, membros expulsos da banda... enfim... o de sempre. Gn`R Lies o álbum seguinte, feito a toques de caixas registradoras soou definitivamente inferior a Appetite, mas vendeu pra burro assim mesmo, assim como os dois volumes de Use Your Ilusion e suas trinta canções com quase três horas de cópula sonora. Dois petardos multimegalômanos que levou a banda a maior excursão da história e elevou os Gunners definitivamente ao Olimpo dos Olimpos. O preço de alterar a rotação da terra? Bem, depois disso o Gun n`Roses era uma pilha panasonic gasta.. O último arroto da banda veio na forma do fraco álbum de covers The Spaghetti Incident? de 93. Criatividade zero. Californianos entediados. Sem comentários.
A partir daí foi só ladeira abaixo. Um free alucinado de drogas, casamentos desfeitos, amigos se xingando pela imprensa, brigas pelo nome da banda, brigas por dinheiro, internações, processos judiciais... enfim, o de sempre. A partir daí também começou-se uma especulação global sobre a "volta" do Gn`R, ou melhor, se haveria volta. Especulação pra vender revista, pois, justiça seja feita aos gringos, o grupo nunca foi oficialmente finalizado no tatame. Apesar da debandada geral dos outros (que fundaram o bem sucedido Velvet Revolver) Axl sempre arrumou um jeito deixar tudo em stand by, de soprar a brasa: seja pelo eterno Chinese Democracy - que segundo ele sai mesmo esse ano - seja lançando a coletânea ao vivo Live Era 87 - 93, ou o Greatest Hits, que contam as histórias da carochinha, saiu contra a vontade do cara. Bem, tem gente que acredita em mula-sem-cabeça. Algumas faixas do novo álbum também já deram as caras na internet "acidentalmente", é claro. Mesmo reformada zilhões de vezes a banda - quer dizer Axl Rose & banda - não abandonou os palcos totalmente. Estiveram no Rock in Rio em 2001 e bombaram uma série de shows em Las Vegas. Em 2002 emplacaram uma mini-turnê pela Ásia e Europa e armaram uma apresentação surpresa no MTV Awards. Neste ano domini de 2006 o grupo já fez shows em Nova York, Madri e se apresentaram no Rock in Rio Lisboa. Shows mornos e sem o poder de antes, mas nenhum fã reclamou.
Axl, percebe-se, é tão desequilibrado quanto esperto. Não traça nem sai de cima. Um bom mistério sempre foi o melhor marketing do mundo, e ele sabe disso. Chinese Democracy é uma incógnita que dura pelo menos treze anos e assim talvez tenha se tornado o disco mais esperado da história (Smile dos Beach Boys perde). Hoje o mercado musical vive um momento estranho. Os novos nomes não têm... força... nem história, nem carisma. Os antigos que voltam, voltam, mas não se renovam, se apegam aos velhos hits como um náufrago numa bóia murcha. Nesse mundo de 2006 onde o rap e o hip-hop são os campeões de venda nos EUA fica difícil saber como será o retorno definitivo dos Gun n`funking Roses, como os próprios safados gostavam de se apresentar. Vai ser curioso assistir a tudo de camarote. Será que tudo vai soar como o urro que ensurdeceu o mundo há vinte anos atrás, ou a coisa não vai passar de um patético e decepcionante sussurro? O mundo ainda precisa de jeans, jaquetas pretas e rebeldia? O mundo ainda precisa de Axl Rose e Companhia? Esperamos a resposta, mas tudo indica que ela é um redondo e sonoro sim. Quem viver verá.

Publicado originalmente no
International Magazine Ed. 124
(Agosto, 2006)
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