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Nos Tempos de Mr. Lee
Emílio Pacheco

Em 1975 e 1976 existia em Porto Alegre um programa de rádio chamado "Mr. Lee em Concerto". Ia ao ar às dez da noite na histórica Continental AM, frequência 1120, com apresentação de Júlio César Fürst - o "Mr. Lee" em questão. A idéia original era rodar country music, com patrocínio de Lee Jeans. Mas a história começou a mudar quando Júlio foi convidado para ser jurado no festival Musipuc, da PUC-RS. Fascinado com o que viu e ouviu entre os novos talentos gaúchos, o radialista decidiu abrir espaço para músicos locais em seu programa. A segunda meia-hora do "Mr. Lee em Concerto" passou a ser exclusivamente com gravações ao vivo ou feitas no estúdio dois da rádio. Não era um fato inédito: os Almôndegas já tinham sido lançados pelo programa "Opinião Jovem", patrocinado pelo cursinho pré-vestibular IPV, onde lecionava o professor de português José Fogaça (ele mesmo, hoje ex-Senador), também compositor e amigo do grupo. Mas Júlio foi o primeiro a divulgar material local em larga escala. Numa época em que nem disco independente existia (exceto a investida pioneiríssima de Antônio Adolfo, o "Feito em Casa"), a iniciativa de rodar meia-hora de gravações exclusivas todas as noites acabou furando um bloqueio e criando um movimento. A música do Rio Grande do Sul nunca mais foi a mesma.

Além do programa, "Mr Lee" promovia ainda shows coletivos. Não só em Porto Alegre mas também no interior. E depois de um certo tempo o "Mr. Lee em Concerto" passou a ir ao ar simultaneamente na Rádio Iguaçu, de Curitiba. Em 1976, Luiz Juarez Pinheiro tinha 18 anos. Gaúcho de nascimento, morava no Paraná desde os dois anos. Mas sempre manteve o interesse pela cultura do seu estado. Não perdia um só "Mr. Lee em Concerto". Ele foi uma das seis mil pessoas que assistiram ao show "Vivendo a Vida de Lee" na capital paranaense, no Ginásio do Círculo Militar ("Palácio de Cristal"), surpreendendo aos próprios organizadores com o público maciço. Mas Luiz Juarez fez mais do que apenas ver e ouvir: com um pequeno gravador portátil, ele gravou vários programas. E manteve suas fitas bem guardadas por todos esses anos. Em um grupo de discussão sobre música, acabamos fazendo contato e ele gentilmente me disponibilizou nada menos do que quatro CD-Rs com suas raridades. Foi uma viagem no tempo.

Luiz Juarez imaginava, como eu também, que mais gente tivesse esses registros em suas coleções. Em especial os protagonistas, como o radialista e os músicos, deviam ter aquelas gravações até com melhor qualidade. Estávamos errados. Aparentemente, ninguém mais gravou nada daquilo. O compositor Nelson Coelho de Castro ficou sabendo do material por um amigo comum, o jornalista Artur Gayer, e me ligou entusiasmadíssimo. Aproveitou para me convidar para participar do programa "Roda Som", na Cultura FM, com apresentação dele, do músico Bebeto Alves (hoje mais conhecido como pai da Mel Lisboa) e do crítico Juarez Fonseca. Com o aval do verdadeiro herói da história - Luiz Juarez Pinheiro, a quem dei o devido crédito no ar - acabei participando não de um, mas de dois programas,



No meio do primeiro programa, recebemos o telefonema de Francisco Anele Filho, ex-operador da Rádio Continental, que foi quem fez as gravações originais que "Mr. Lee" rodava. Por telefone mesmo, ele mostrou um trecho de "Anos 70", do grupo Utopia, de Bebeto Alves. Tocou também "Magricela", de Nelson Coelho de Castro. Fugindo um pouco do assunto, para mostrar as relíquias do seu arquivo, Anele rodou ainda a íntegra de uma edição extraordinária do noticioso "1120 é Notícia", sobre a morte de Jorge Mautner. Não se assuste: era apenas uma "barriga" que foi ao ar em março de 1975 (a data fui eu quem lembrou). Quando um jornal loca! descobriu que o redator da Rádio Continental passava lá todos os dias para "chupar" notícias do telex, alguém teclou a notícia falsa em modo local e o trote colou. Mas foi emocionante ouvir de novo aquele texto comovente. "O relógio quebrou..." De qualquer forma, já sabemos quem tem as fitas originais com boa qualidade. O dia em que pintar um Marcelo Fróes ou um Charles Gavin na casa do Anele, não vai sobrar pedra sobre pedra.

Infelizmente, não houve tempo para rodar todas as preciosidades enviadas pelo Luiz Juarez. Mas o importante é que elas estão salvas e bem guardadas. Lá se encontram, por exemplo três gravações dos Almôndegas: "Alhos com Bugalhos", "Piquete do Caveira" e "Testamento". As duas primeiras viriam a ser lançadas em disco, embora "Alhos" perdesse o arranjo de assobios no final. A terceira, de Fogaça, continua inédita. (Os Almôndegas gravaram na Continental também "Teiniaguá" e "Aqui", igualmente nunca lançadas, mas essas o Luiz Juarez não chegou a registrar.) "Mr Lee" anuncia "Desencontro de Primavera", com Hermes Aquino, dizendo que "amanhã o Brasil todo vai cantar". E foi exatamente isso que aconteceu em 1977, quando a música entrou na novela "As Loco-Motivas" (pra quem não lembra é aquela que começa assim: "uma andorinha no céu passou e disse..."). O mesmo Hermes canta "Sem Eira Nem Beira", que depois virou "Longas Conversas" e teve a palavra "beber" substituída por "viver". Lembram do Joe, que cantava "Já Fui" e "Me Leva Pra Casa"? Em Porto Alegre ele era conhecido como Zezinho Athanásio. Do seu ex-grupo Simbiose, rodamos a linda "Flor de Klô". O material inclui ainda várias gravações de Fernando Ribeiro, 2é Flávio (ainda no Mantra, antes de entrar para os Almôndegas), Hallai Hallai, Gilberto Travi & o Cálculo IV, Inconsciente Coletivo, Byzarro, Bobo da Corte, João Schuh e outros.

Nada dura para sempre, mas o "Mr. Lee em Concerto" jamais poderia ter acabado no final de 1976. O movimento estava no auge, ainda mais depois das seis mil pessoas em Curitiba, e teria fôlego para continuar por pelo menos mais um ano. Fernando Ribeiro e Hermes Aquino, por exemplo, só lançariam seus primeiros LPs no começo de 77. Infelizmente, com a perda do patrocínio da Lee, Júlio Fürst interrompeu o befo trabalho de divulgação que vinha fazendo. Voltou um mês depois como "Mestre Júlio", às seis da tarde, mas não era mais a mesma proposta. Todos ficamos um pouco órfãos com o final do "Mr. Lee em Concerto" e dos shows "Vivendo a Vida de Lee". Ainda bem que pelo menos um ouvinte teve a visão de gravar alguns programas.

Publicado originalmente no
International Magazine Ed. 90


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