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Alemães assistem "Wood & Stock" de Angeli debaixo de chuva


Longa-metragem assinado pelo cartunista paulistano tem estréia internacional no prestigiado Open Air Filmfest de Weiterstadt em sua 30° edição.


Felipe Tadeu

Weiterstadt, Alemanha - A mostra internacional de cinema mais charmosa da Alemanha serviu na madrugada de 12 de agosto como plataforma de lançamento no exterior da mais audaciosa produção do consagrado criador da revista Chiclete com Banana. Fechando a segunda noite do Open Air Filmfest de 2006 promovido em Weiterstadt, a poucos quilômetros de Frankfurt, a película Wood & Stock - Sexo, Orégano e Rock'n Roll veio provar que também se produz bons filmes de animação no país da Cidade de Deus.

Como no festival de Woodstock que abalou os Estados Unidos no verão de 1969 e que inspirou Angeli na criação dos personagens hippies Wood & Stock, a exibição do longa brasileiro na mostra ao ar livre foi castigada por uma chuva impiedosa, que afugentou a maior parte dos cerca de 200 espectadores que foram ao bosque assistir o evento, que tem entrada franca. Mas nem isso serviu para abalar o ânimo dos incansáveis produtores do Filmfest, afinal não há motivos para reclamar quando uma mostra do perfil da de Weiterstadt consegue completar 30 anos de existência, sem abrir mão de seus princípios fundamentais de não ceder ao comercialismo da indústria cinematográfica.

A contracultura no país tropical
Sexo, Orégano e Rock'n Roll conta a história das alucinadas bravatas da geração flower-power numa terra periférica chamada Brasil. Dirigido pelo gaúcho Otto Guerra, velho admirador de Angeli, o filme não corre o menor risco de ser incompreendido pelas platéias internacionais. A temática da geração dos sixtie permanece viva no imaginário europeu, ainda que a Humanidade tenha se tornado muito mais materialista que na década de 60, e lemas como o sexo livre e o pacifismo estejam soterrados pela proliferação da Aids e as guerras da era Bush. "É interessante observar que ídolos da contracultura como Jimi Hendrix, Robert Crumb e Janis Joplin também tenham se popularizado num país como o Brasil. O cosmopolitismo está mesmo em toda parte e isso não é de hoje", comentou o cinéfilo alemão Werner Buxbaum.

As tiradas hilárias dos personagens Rê Bordosa, Meia-Oito, Nanico, Lady Jane e Rhalah Rikota arrancaram gargalhadas do público remanescente, ainda que as legendas fossem em inglês. Embalados pelo rock tupiniquim de uma trilha-sonora que tinha de Novos Baianos a Rita Lee, passando por Tom Zé, Arnaldo Batista e Júpiter Maçã, os espectadores resitiram até o fim da exibição, às 2:45 da madrugada de sábado, como quem saboreia a rara oportunidade de ver na Alemanha o que a animação brasileira vem produzindo atualmente. "Se eles soubessem que as vozes dos personagens Rê Bordosa e Profeta Raulzito foram feitos por gente como Rita Lee e Tom Zé, nossos eternos tropicalistas, o barato seria ainda maior", afirmou o paulistano Caio de Albuquerque, um dos poucos brasileiros presentes.


Um festival diferente
Nem Angeli, nem o diretor do longa-metragem Sexo, Orégano e Rock'n Roll, Otto Guerra, puderam vir a Weiterstadt apresentar a exibição. "Infelizmente os dois tiveram que ficar no Brasil, por causa da mostra Anima Mundi. Mas o sobrinho de Otto, Tiago Guerra, que também trabalhou na produção do filme e vive hoje em Paris, vem para o nosso festival", contou Andreas Heidenreich, assessor de imprensa do evento.

A primeira edição do Open Air Filmfest Weiterstadt se deu em 1977. Na ocasião, apenas três espectadores abriram mão do sol radiante que fazia lá fora, para se enfurnar na escura sala de projeção. Foi aí que os organizadores deram a guinada radical. "Se o público não vem até nós, nós iremos até eles". Munidos de uma estrutura precária, com o projetor montado num micro-ônibus e uma tela tão pequena quanto artesanal, os idealistas do festival partiram para o bosque de Braunshardter Tännchen.

O evento começou a dar o que falar pela originalidade de seus criadores e pela programação, que abria espaço para a exibição de filmes de super-8 e de 16 milímetros, formatos já discriminados na época. Cientes de que sempre haverá cineasta querendo mostrar suas obras e público ávido por novos filmes, os organizadores perceberam logo o potencial do Filmfest. Começaram exibindo a película Pink Floyd em Pompéia, atraíram a cumplicidade de diretores que engatinhavam na carreira cinematográfica, e em pouco tempo o festival foi ganhando notável estatura. Vieram os primeiros curta-metragens de outros países, o tamanho da tela foi aumentando, houve a adesão do Hessische Filmförderung na concessão de verbas, e foi vindo gente de fora da região para assistir os filmes.

Referência internacional
O Open Air Filmfest contou em sua 30° edição com filmes de 39 países, num evento que durou quatro dias. Além da mostra ao ar livre, houve também o Circuszelt, uma tenda circense onde foram apresentados desde filmes infantis, a videos musicais produzidos na região e curta-metragens. Fora da lona, dj's e bandas alternativas tocavam nos intervalos dos filmes, tudo num esquema simples, mas bem eficiente. Em dias de bom tempo, o festival consegue reunir mais de mil espectadores, sendo hoje uma referência no mundo inteiro como vitrine da produção emergente.

Para as comemorações do 30° aniversário, os organizadores esperavam atrair 10 mil espectadores e, com isso, convencer o poder público e os patrocinadores a investir mais no evento, que só dispõe de cerca de um terço da verba para cobrir a marca de 80 mil euros de um festival que, em termos de cinema e bom entretenimento, sempre foi um sucesso.



Publicado originalmente no
International Magazine Ed. 98


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