Unicorn
Chega de saudade
Jorge Albuquerque
É longa e com letras minúsculas a lista de bandas injustamente relegadas ao limbo na história da música pop. Muitas vezes a falta de uma boa divulgação ou a de um empresário mais dedicado sepultou o sonho de muita garotada ou o sucesso de conjuntos excelentes. O rock, particularmente, é pródigo neste tipo de história. Exemplos não faltam. A era mais criativa da música, os anos de 1970, bandas como Rare Earth, Vanilla Fudge, Moby Grape, Pink Faries, Edgar Broughton Band, Steeleye Span, Budgie, James Gang, Pentangle, Affinity, May Blitz etc etc, entre muitas outras, tinham tudo para estourar na parada ou pelo menos construir uma carreira mais sólida. Hoje são notas de rodapé.
Uma das mais interessantes, e de fôlego curto, deixando ao menos três ótimos discos para a posteridade, foi a banda britânica Unicorn. O grupo tinha tudo para ter se transformado numa referência na cena inglesa da época e uma influência. Mas as mudanças de humores das paradas, os modismos, a administração da carreira, e principalmente a avalanche punk, encolheram o sucesso inicial e arrastaram um dos mais promissores conjuntos de country e folk rock (senão o mais importante da cena britânica na sua época) para um criminoso ostracismo. Quando o nome do Unicorn é veiculado, geralmente é em associação com o do guitarrista David Gilmour, músico do Pink Floyd, o "descobridor" e assumido fã do conjunto, que levou o quarteto para o seu estúdio particular e lá produziu ou co-produziu os discos e praticamente todo o repertório, descolando também um contrato com a EMI. Gilmour não saiu de mãos abanando: o primeiro hit da carreira solo de David foi uma versão em 1978 para "No way out of here", composição de Ken Baker. O sucesso da canção nas rádios catapultou o nome de Gilmour para fora das fronteiras do Pink Floyd e durante os anos de 1980 manteve-se no repertório dos seus shows.
Hoje a versão original do Unicorn pode ser novamente encontrada na prateleira de alguma loja de importados, com o relançamento da discografia e de dois novos álbuns (uma antologia e outro com o registro de shows para a BBC e sobras de estúdio) pelo selo norte-americano ItsAboutMusic.com. A saga do Unicorn remonta aos anos de 1960. Fãs de Beatles, os colegas de colégio Pat Martin e Ken Baker aprenderam a tocar guitarra, e costumavam ensaiar após as aulas na garagem de Pat. Logo apareceu Peter Perrier para a bateria. Peter era também um bom cantor e os ensaios passaram a ficar mais sérios. O baixista Trevor Mee, até então o mais experiente (ensaiva com The Castaways) acabou sendo o escolhido para a segunda guitarra, empurrando Martin para o baixo. Formaram o Late Edition tocando música pop e versões dos hits da época. Depois de uma curta temporada na Dinamarca, onde eles curiosamente escutaram o então recém-lançado disco de estréia do Crosby, Stills & Nash, voltaram para a Inglaterra profundamente transformados (e transtornados) com o que havia naquele LP. Decidiram radicalmente mudar o rumo e a música do grupo, tornando-se uma banda de country rock, algo diferente na ilha.
Agravaram novas demos e assinaram com o Transatlantic, pequeno selo, mas famoso, e testaram alguns novos nomes para a banda - entre eles, coisas como Pink Bears! Finalmente se decidiram por Unicorn e em 1971 lançaram "Uphill All the Way", fortemente calcado no folk country rock britânico. Mas mudanças na diretoria da Transatlantic emperraram uma boa divulgação, o que não favoreceu a venda de shows. Desiludido, Trevor Mee saiu (aproveitou para ir atrás de uma namorada) e foi substituído por Kevin Smith.
Às influências de Byrds e CS&N somaram-se a nova paixão pelo Traffic e o Flying Burrito Brothers. Com esta última excursionaram pela Europa e pela primeira vez receberam os aplausos da imprensa. Em 72 foram convidados para tocar no Festival da Canção de Veneza, televisionado para toda Europa. Mas, no final das contas, o agente italiano e um empresário sumiram com o dinheiro e o grupo precisou tocar em clubes para levantar a grana necessária para pagar o hotel e voltar para a Inglaterra.
Em 1973, o Unicorn foi tocar na festa de casamento do amigo Ricky Hooper (da Transatlantic) e lá se encontraram com outro convidado, David Gilmour, com quem tocaram no final do evento, numa longa e elétrica "jam" sobre o tema de "Heart of gold", clássico de Neil Young. Gilmour, fã de country e folk rock, ficou impressionado e se ofereceu ali mesmo para produzir o disco da banda no novo estúdio que ele estava construindo, em Essex - e o próprio empresário Steve O'Rourke para administrar a banda. Gilmour foi também responsável por bancar algumas sessões de gravação no imponente Olympic Studios em Londres. Com David na produção e no "pedal steel guitar", saiu aquele que é considerado o melhor trabalho do Unicorn, o álbum "Blue Pine Trees". O que aconteceu a seguir, é história.

"Blue Pine Trees" descortinou um universo ainda inédito para os rapazes, de fama e sucesso. Com "Blue Pine Trees" o conjunto esteve muito perto de ser uma estrela da música pop, com suas canções tocando nas rádios e subindo na concorrida parada inglesa. Nessa época a sua música havia sido rotulada de soft rock (Eagles, Poco, Firefall, Loggins & Messina), muito popular nos Estados Unidos. Sendo assim, o selo Charisma Records (Capitol e EMI for a da Inglaterra) agendou uma infinidade de shows do outro lado do Atlântico, com a banda abrindo para conjuntos como Fleetwood Mac, Doobie Brothers Manfred Mann's Earth Band, Climax Blues Band, Styx, e artistas do porte de Billy Joel e Linda Ronstadt, entre outros, tocando em cidades como Nova York, Houston, Austin e Dallas. Enquanto isso, faixas como "In the gym", "Holland", "Autumn wine", "Nightingale crescent" e, principalmente, uma ótima "Electric Night", capturavam a atenção de uma nova audiência.
Na volta, em 1975, o Unicorn entrava em nada menos que no Air Studios, de George Martin, para começar as gravações de "Too Many Crooks", com o amigo Gilmour novamente na produção. O disco, a excelente fusão de pop e country, acabou fazendo menor impacto que o álbum anterior, apesar de um repertório sólido, ótimas canções, como "Weekend", "Ferry boat", "Bullseye Bill" e "No way out of here" - a canção que serviria como cartão de visitas de Gilmour e ficaria semanas no topo. A versão original do Unicorn, mais uma com a assinatura de Ken Baker, é mais emotiva e orgânica, enquanto David preferiu imprimir algo mais viajante e pesado. O grupo chegou voltar aos Estados Unidos para outra turnê e abrir shows de outros astros da época, mas passou a maior parte do tempo naquele ano dedicando-se a divulgar o disco no Reino Unido.
Em 1977, quando a banda dava os retoques finais nos estúdios Britannia Row, do Pink Floyd, David teve que largar no meio o projeto do novo disco ("One More Tomorrow") para se juntar aos outros integrantes do Floyd para um álbum ("Animals") e uma turnê. Muff Winwood (irmão de Steve) ficou responsável por dar o acabamento no Island Studio. A escolha de Muff se deveu também à tentativa de forçar a banda a tomar um rumo mais pop. O resultado final acabou não agradando, principalmente aos próprios rapazes do Unicorn. Quando o disco saiu, o grupo teve que encarar a turbulência da parada de sucessos tomada pela moda "disco" e o arrasador levante punk do final dos anos de 1970 que iria sacodir as estruturas da indústria fonográfica e revolucionar toda uma geração.
Com poucas oportunidades de novos shows e a cada vez maior restrição do espaço nas rádios, o Unicorn viu a fama se esvair rapidamente. Não tiveram dúvidas de encerrar as atividades da banda. Ao longo dos anos, com o passar das décadas, o nome do conjunto se perderia na memória dos fãs. A história começou a tomar novo rumo há pouco tempo, em 2001, com o lançamento de uma compilação. Os discos começaram também a ser reeditados no Japão e finalmente a ItsAboutMusic.com repôs a discografia, mas no formato, no mínimo curioso, de CD-R: para minimizar o custo de produção, manufaturá-los de forma caseira, mas profissional (arte gráfica, o selo do CD etc é como se fosse produzido em fábrica), tornou viável tanto para a companhia quanto para a banda disponibilizar os discos novamentes para a era digital, e ainda remasterizados (diretamente das fitas originais, por Andy Jackson no estúdio particular de David Gilmour, o Astoria Floating Studio).
O grande destaque nesse "revival" do Unicorn é o lançamento de dois discos inéditos. Pat Martin, hoje responsável pela gerência dos negócios da banda, e o selo ItsAboutMusic.com descobriram juntos dezenas de fitas com sobras de gravação, músicas inéditas, demos, out takes e lados B, material farto o suficiente para encher um álbum de raridades ("Shed no Tears - The Shed Studio Sessions") e um dos CDs da compilação dupla "No Way Out of Here - The Anthology". Para o primeiro eles conseguiram, inclusive, a liberação de uma apresentação no programa de Bob Harris, na BBC, com a canção "Ballad of John and Julie". Em "Shed no Tears - The Shed Studio Sessions" são ao todo 20 faixas, sendo 14 de registros dos ensaios de canções (todas de Ken Baker) que rolavam na garagem de Martin, local onde ensaiavam desde 1966. A qualidade sonora é surpreendentemente boa e preciosidades como "Open sea", "Don't want to go home alone", "Canada's a long way", "Social shirker", "Get it back", "Restless", "You can have a dream" e a excelente "Rainy season" - um pecado não ter entrado em nenhum dos discos. Entre os "extras", "Don't tell me I know" gravada no estúdio caseiro de Gilmour, em Oxfordshire, entre 1979 e 1980, quando a banda pensava na viabilidade de seguir em diante. Há ainda, entre sobras dos discos "Blue Pine Trees" e "Too Many Croocks", uma canção de Baker chamada "Rio de Janeiro". Pat confessa que Baker nunca esteve no Brasil.
"No Way Out of Here - The Anthology" é outra coleção de raridades. Mais material raro e inédito (ainda que repetindo algumas faixas presentes em "Shed no Tears) completam os 77 minutos do segundo CD, e outra vez com uma qualidade sonora desconcertante. Músicas como "Cosmic kid", "I saw you", "Hold on" e "Forgive and forget" também mereciam ter encontrado o seu devido lugar em algum álbum de carreira. O primeiro CD da antologia é uma espécie de "Best of" do Unicorn, misturando faixas dos três discos e algumas das novas descobertas. Esses dois recentes discos do Unicorn foram manufaturados também de forma artesanal pelo selo ItsAboutMusic.com. Os discos são indicados para quem gosta do rock consagrado por gente como o Poco, Flying Burrito Brothers, Loggins & Messina e Eagles, com um acento britânico, com acréscimo da chancela de ninguém menos que David Gilmour e sua participação na produção e em algumas faixas. Nada progressivo ou de influência do Pink Floyd, mas simplesmente boas canções, ganchudas e um instrumental de primeira. De uma banda que merecia melhor sorte. Ainda não é tarde para (re) descobrí-la.