Ney Matogrosso
Homem de Neandertal

Fatos e curiosidades sobre o primeiro trabalho solo de Ney Matogrosso
Carolina Landi
O primeiro álbum solo de um futuro artista consagrado pode dizer muito sobre os rumos que sua carreira irá tomar. Ainda mais quando o disco é disputado a tapas em sites de leilão de LPs de vinil chegando à bagatela de 198 dólares no gringo Gemm.com. É o caso de Água do Céu Pássaro (1975, Continental), primeiro trabalho individual do então ex-Secos & Molhados Ney Matogrosso. A bolacha (também conhecida como Homem de Neandertal, título do show desse trabalho e da música inclusa no álbum) reunia elementos de um som progressivo num disco genuinamente brasileiro. Nela, canções que tinham cerca de seis minutos eram interligadas por sons de macacos, pássaros, ventanias e água corrente. A sofisticação do disco não se esgotava em seu arrojado vigor conceitual. Junto com ele foi distribuído um compacto que continha duas músicas (1964(II) e As Ilhas) que Ney gravou com Astor Piazzola na Itália.

"A seleção do repertório foi simples. Eu queria colocar no disco as minhas influências musicais, o (som) que eu gostava além das músicas do Secos, coisas que eu ouvia na minha adolescência. Funcionou como uma carta de intenções, eu abordei aqueles universos depois em outros trabalhos", disse Ney, em entrevista exclusiva ao International Magazine. A track list era forte. O LP abria com Homem de Neandertal, composta por Luis Carlos Sá, da dupla Sá & Guarabyra.
A segunda faixa, O Corsário, tem uma história curiosa. O artista procurou João Bosco para gravar alguma composição sua inédita. Bosco lhe ofereceu duas músicas, sendo uma delas Caça à Raposa, a qual Ney gostou muito. "Mas ele me disse que a Elis Regina já ia gravar. Acabei optando pelo Corsário". Para compensar, gravou uma de Milton Nascimento e Ruy Guerra, "Bodas". Acúcar Candy,de Sueli Costa e Tito de Lemos, foi extraída de uma peça teatral infantil (!). "Todo mundo acha que é erótica, né?", ri, se referindo a versos como "Tua pistola dispara baunilha/Na minha boca/No meu dorso". Mas polêmica mesmo foi a regravação do fado de Amália Rodrigues, Barco Negro, cantada no feminino.
Outras músicas do álbum foram Pedra de Rio (de Luhli e Lucina), Idade de Ouro (Paulo Mendonça) e a latinidade latente de Coubanakan (Sauvat-Chamfleury) que foi tema da novela homônima de Carlos Lombardi em 2002, quase trinta anos após seu lançamento. A força de América do Sul, faixa de Paulo Machado que encerra o disco no lado B, "mandava recado" (para usar uma expressão bem em voga nos tempos de ditadura) sobre a situação política que assolava os países latino-americanos: "Deus salve essa América do Sul/Deixa viver esses campos molhados de suor/Esse orgulho latino em cada olhar". A canção resultou no primeiro video clipe da televisão brasileira, uma super produção gravada fora dos estúdios, com direito a imagens aéreas e belas locações em São Conrado e Alto da Boa Vista (RJ). Trechos do vídeo mostram Ney sobrevoando várias paisagens - efeito obtido com ele amarrado pela cintura num helicóptero sem portas. Valeu o sacrifício. Dirigido por Nilton Travessos, foi ao ar no Fantástico em 29 de julho de 1975, e rendeu vários prêmios para a TV Globo.
A escolha da banda para disco e show foi um processo natural. Pouco tempo após sua saída do Secos & Molhados, Ney foi assistir um concerto de Astor Piazzola e no final, foi falar com o argentino. Disse que era cantor e gostaria de gravar uma música dele. Para sua surpresa, Piazzola disse que conhecia o Secos e convidou Ney para gravar um compacto na Itália. Quando voltou de Milão, o artista apresentou seu trabalho para alguns músicos, entre eles Márcio Montarroyos, o primeiro a entrar na banda. Depois, vieram feras como Guilherme Vaz, Bruce Henry, Cláudio Gabis, Elber Berdaque, Jorge Omar, Chacal e Sério Rosadas. Ensaiaram três meses. O show Homem de Neanderthal estreou no dia 15 de março de 1975. Com um orçamento de meio milhão de cruzeiros (na época), o espetáculo era quase uma reprodução fiel ao clima rústico da capa do LP. Marcado pelo visual meio bicho, meio humano, Ney surgia num cenário de uma floresta, envolto em peles de animais. "Tive também a idéia de colocar folhas de eucalipto e esterco de boi pelo teatro, mas não vingou", complementa. A produção visual era inspirada na arte gráfica do álbum, feita por Rubens Gerchman. Na capa, feita de papelão cru, Ney aparece em fotografia exótica, com seu corpo seminu envolto com chifres de carneiro que surgem das suas costas e crina de cavalo na cabeça. E mais, pêlos de macaco pendurados na cintura e nos ombros, dentes de boi nos punhos, boca e olhos delineados de preto. O ensaio foi feito por Luiz Fernando Borges da Fonseca na Baía de Sepetiba, numa praia ainda virgem encoberta pela maré durante a noite.
Apesar de toda a originalidade, o disco não obteve êxito comercial, sendo considerado "alternativo demais" pela crítica. "Foi um disco muito estranhado por todos. As pessoas esperavam a música e entrava sons de pássaros, cachoeiras...Considero que esse seja um dos meus melhores trabalhos", conta, demostrando um carinho evidente pelo LP. Três décadas e inúmeros hits depois, o álbum é um item de colecionador. Até pelo fato de nunca ter sido reeditado em CD devido a uma briga judicial com a Continental. "Eles lançaram uma coletânea sem a minha permissão." A atitude da gravadora foi parar nos tribunais. Ney ganhou a causa - mas não a posse das masters, que estão sob a guarda da Warner. Ney Matogrosso tem planos de lançar uma caixa com todos esses trabalhos (que também inclui dois álbuns seguintes, Bandido (1976, o seu primeiro boom comercial) e Pecado, de 1977) e gravações raras, como as músicas o filme Para Quem Fica Tchau (1970), de Reginaldo Faria.

Publicado originalmente no
International Magazine Ed. 123
(Julho, 2006)
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