Classicos
Tetê Spindola e o Lírio Selvagem (1979)
O canto e as cores de Mato Grosso do Sul


Por Altair dos Santos

Nos idos de 1979, Tetê e o Lirio Selvagem tinham seu primeiro e único disco lançado pela Philips/Phonogram do Brasil (hoje a extinta Abril Music). A banda formada pelos irmãos Espíndola: Tetê (voz e craviola), Geraldo (voz, violão e craviola), Alzira (voz, violão e violão de 12) e Celito (voz, baixo e violão), mostravam para o Brasil, um pouco da cultura pantaneira, em um nível musical sofisticadíssimo.

A polca que um dia, Ernesto Nazareth introduziu no Brasil como um ritmo popular, noutro dia foi re-trabalhada pelos paraguaios como um ritmo ternário, e por sua vez, era reciclada pelo Lirio Selvagem, de uma forma vanguardista, misturando-a em linguagens contemporâneas, somando à MPB. Era em si, uma idéia revolucionária para o mercado fonográfico brasileiro naquela época, dominado por artistas como: Milton Nascimento, o Clube da Esquina, Ivan Lins, Chico Buarque, e Caetano Veloso. O Lirio Selvagem era o que destoava de mais diferente na estética musical de todo aquele cenário, seguido dos Secos&Molhados.

O disco trazia as canções como "Caucaia", "Pássaro sobre o cerrado", "Andorinha manca" e "Rio de luar", com temas ecológicos fortemente expressado nas letras. "Rio de luar" que inclusive, foi a faixa do disco mais executada nas rádios, sendo uma surpresa para a gravadora que apostava na canção 'É Necessário' como hit do disco. "Quando você tá por perto" (Celito), "Vôos claros", "Na catarata" (Alzira e Carlos Rennó) e "Santa Branca" (Geraldo Roca), são as músicas temporais, que conceituam, de forma clara e objetiva a proposta do Lirio Selvagem, pelos ritmos fronteiriços temperados com letras de conteúdo social em foco na sociedade regional. Nessa época, Geraldo Espíndola vivia a dizer o bordão "legal é ser índio, legal é o Paraguai", ou "cherei muito pó de arroz e corri muito arrozal", e a "urbanália progressiva", dá como base filosofal da realidade pantaneira ser bem diferente do ritmo metropolitano de São Paulo. Geraldo, além de autor na maioria das canções, era (e é) o lunático da banda, pois já havia passado por festivais concorrendo com a canção "Ponha na sua cabeça" (prêmio em 1968) e de ter tocado com Paulo Simões na banda Os Bizarros, também conhecida como "Os bizarros fetos pára-quedistas de alfa-centaury". Mais revolucionário que isso, foi o conceito das roupas desenvolvido pelo artista plástico João Sebastião sob o Movimento Arte e Pensamento Ecológico, numa fusão do homem-bicho que chocou (e ainda choca muitos) levando em conta o figurino.

O disco teve uma certa repercussão, foi lançado em programas de grandes audiências como o Fantástico, Raul Gil, entre outros. Fizeram uma série de shows pelo Brasil, entre os de mais destaques aconteceram no teatro Ruth Escobar (São Paulo) e no teatro Dom Bosco (Campo Grande), este último que teve a participação de Almir Sater na charanga e na viola. Além de Almir, outros convidados que passaram pelo Lirio Selvagem foram: João Fígar (João Figueiredo) que participou tocando percussão em alguns shows, e também Sérgio Espíndola (irmão do quarteto Espíndola) que em algumas ocasiões tocou baixo.

Muitas histórias surgiram da entressafra no período de shows de divulgação do primeiro disco para um 'suposto' segundo disco do Lirio Selvagem. Algumas dessas histórias seria a exigência da Phonogram obrigando o Lirio a regravar a canção "Refazenda" de Gilberto Gil, além de que o segundo disco do Lirio teria seu repertório escolhido pela gravadora, com regravações de medalhões das paradas, modificando assim o conceito da banda. Com o passar dos tempos, nada disso foi confirmado, tudo não passou de boataria.

Passado algum tempo depois, o Lirio Selvagem se dissolveu e a gravadora resolveu lançar Tetê Espíndola como cantora solo. Por mais que a banda estivesse desfeita, o conceito e a estética musical permaneceu nas carreiras solos dos integrantes da banda e até dos músicos que estiveram por perto.

  • O disco de Tetê "Piraretã" (1981), que se sucedeu após a dissolução do Lirio, traz essa ponte entre o Lirio Selvagem, além da canção "Refazenda". Tetê dispensa comentários, pois é de domínio público suas façanhas como o Festival dos Festivais (1987) entre outros projetos de estética visionária como o "Pássaros na garganta " (1982);

  • Alzira, no seu single de lançamento (1983) tem na abertura a canção "Terra boa" (Sater/Simões), canção de arrepiar os pêlos com o toque da viola. E em seu primeiro disco lançado em 1987, pela 3M do Brasil, tem seu toque caipira junto à polca, com uma visão mais simplista e feminina. Todos esses frutos foram amadurecimentos de Alzira desde antes do lançamento desses discos, como os shows intitulados 'Vozes e Violas', como base o folk pantaneiro instrumentado no foco regional. Em 2005, Alzira junto à Alice Ruiz, lança o disco 'Paralelas' que realça o universo feminino com pitadas poéticas e regionais;

  • Geraldo em 1991, pelo selo LuzAzul, lança em seu primeiro trabalho solo, trazendo uma compilação histórica de suas canções. Este mesmo disco relançado em cd, traz uma releitura da música "Fala bonito" ao vivo, com uma guitarra fabulosa de Celito, sendo que na versão LP de Geraldo, a canção tem um arranjo mais simples, em voz, violão e teclado. Lança também em 2004 o cd "30 anos nesse mato";

  • Celito lança pela Paradoxx em 1996, seu primeiro disco solo, também contendo os conceitos iniciais do Lirio Selvagem. Celito foi mais abusado neste disco, misturando a polca com a bossa, o jazz, chamamé e outros ritmos universais, em canções de teor sintético e em gravações que misturam o analógico e o digital. Destaque para a canção "Labaredas", perfeita em toda sua concepção;

  • E por fim, o amigo Almir Sater firmou contrato com a Continental e seu disco de estréia solo (1982), também traz essa ponte entre o Lirio Selvagem. Isso é audível nos arranjos das músicas e nas participações de Tetê e Alzira nos vocais;

    Em tempo, vale ressaltar que todos os artistas aqui citados, mantiveram o conceito inicial do Lirio — a influência regional em seus demais trabalhos lançados.

    A banda Lírio Selvagem que começou em um natal de 1975, com o nome Luzazul, fez escola em todas suas facções, e continua a fazer adeptos entre os pesquisadores musicais. O ano de 2002, foi muito forte isso no Estado de Mato Grosso do Sul, onde surgiu um movimento em que vários artistas, usam a polca e/ou o ritmo em 3/3 como elemento de mistura musical, exemplos: Jerry&Croa, Filho dos Livres, Rodrigo Teixeira e Antônio Porto.

    (*) O canto e as cores de Mato Grosso do Sul, é o título original de um texto que acompanha o folder do show de Tetê e o Lirio Selvagem, que aconteceu no teatro Dom Bosco (1979).



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