Luiz Paulo Simas

Luiz Paulo Simas iniciou carreira nos anos 1960, com a banda de bossa Agora-4. Em seguida fundou o lendário grupo Módulo 1000, com o qual prosseguiu pelos anos 70. Mais adiante integrou um dos mais lendários grupos do rock nacional: o Vímana, ao lado de com Lulu Santos, Fernando Gama, Lobão e Ritchie. Com o fim da banda, Luiz Paulo seguiu investiu ainda mais na carreira de músico. Dono de um sintetizador eletrônico, coisa rara na época, nunca lhe faltava trabalho, e tinha gravações o dia inteiro e em diferentes estúdios. Deste tempo, alguns de seus 'sons' ficaram para sempre, como o zumbido da mosca da sopa do Raul Seixas e o inconfundível 'plim-plim' da TV Globo. Simas já fez apresentações no Weill Recital Hall, do Carnegie Hall, em Nova York; no Oslo Jazz Festival; e na série Jazz, da Sala Cecília Meirelles, no Rio. Radicado nos Estados Unidos há quase 20 anos, Luiz Paulo Simas lança "Cafuné", seu quarto disco solo "Cafuné", e em entrevista ao International Magazine fala de seu presente e também do passado e do futuro. Acompanhe os bons momentos da conversa. Marcelo Fróes & Elias Nogueira

"Cafuné" está saindo primeiro no Brasil?
Na realidade este disco é o primeiro lançado e feito para o Brasil. Antes já havia lançado quatro discos nos Estados Unidos. Estou na América há 18 anos e sempre fiz disco pensando nos americanos. Alguns eram piano solo e outros eram cantados e com grande parte em inglês. Este é o primeiro disco que fiz pensando no Brasil.

O encarte do disco diz que a versão internacional tem as letras em inglês. É apenas tradução ou você gravou uma versão em inglês?
Não, é apenas porque no encarte as informações vêm em português e inglês. O disco é o mesmo.

Este disco você gravou agora ou já vinha trabalhando há muito tempo?
Eu gravei durante um ano. Mas eu venho fazendo as músicas já algum tempo. Inclusive, tem uma música que tem 30 anos, "Apareci por aqui". As outras são novas.

Você compôs exatamente para este disco ou fez uma coisa mais livre em que podia resultar em outro disco?
Algumas músicas eu fiz pensando no disco e outras não. Tem essa que é antiga e mais outras três que fui compondo sem pensar o que fazer. A maioria fiz pensando no disco.

Por que somente agora você lança um disco no Brasil?
Eu estava em Nova Iorque e não tinha uma fórmula para vir promover e fazer um trabalho aqui. Agora que consegui imaginar como darei continuidade em tudo isso. O meu trabalho está saindo por um selo que é meu e totalmente independente. Antes eu não tinha perspectiva alguma em vim lançar um disco aqui no Brasil. Não tinha sentido eu morando fora e lançar um disco aqui. Agora tenho um esquema de vida que vai dar para eu vir muita vezes no Brasil. Estou no Rio há três meses! Antes, eu ficava apenas uma semana.

E a receptividade do povo?
A reação de quem vai ao show e ouve é ótima. Nos jornais tive críticas variadas. Não sei se entenderam bem, mas cada um entende de uma forma.

Até que ponto esse disco tem uma conexão com o início de sua carreira?
Acho que a conexão existe na música. Apesar de ser um disco em português com muito samba e muito ritmo originalmente brasileiro, mas não é um disco típico de MPB. Tem músicas que começam com instrumental e somente no final que entra a música. São coisas atípicas da MPB. Alguns arranjos têm um lado roqueiro. Tem músicas que para no meio, eu falo alguma coisa e depois a música continua. Essas ousadias é que são ligadas ao tempo do Vímana.

E o lado mais atual do Luiz Paulo? O que diferencia do que você fez antes?
É um disco muito eclético. Tem desde coisas mais ingênuas até temas mais sofisticados em letras e conceito. Eu quis fazer uma mistura bem variada. Acho que hoje em dia os artistas tendem a escolher um estilo direcionado demais pro meu gosto. Por exemplo: Ou você faz rock-denúncia, ou você faz new age e fica sonhando, ou então, bossa-nova purista... Têm vários estilos e as pessoas fazem um disco totalmente naquele estilo. Eu não gosto disso! Gosto de variedade mesmo! Existe campo pra tudo e dá pra ter uma unidade com a variedade. Tem músicas que as pessoas cantariam e outras não. Cito como exemplo: "Se o Papa dissesse", que não tem nada haver com o Papa e religião, mas fala que: "Se o Papa disse muito claramente que todos os credos vêm da mesma fonte do mar de Iemanjá, do amor de Maria, o mundo seria bem diferente" é bem poética e fala se todos fossem mais abertos e mais claros... é uma música filosófica que provavelmente os roqueiros vão achar que é um sonho de new age e coisa e tal. Mas tem outras músicas que os roqueiros aceitariam, uma música mais maluca. O disco é uma combinação de vários estilos.

Você se sente com o pé no progressivo?
Se você chama de progressivo o que era rock progressivo daquela época, eu nunca tirei completamente o pé! Tem um tema instrumental chamado "Revolta dos mares", que é meio progressivo. Tem outras músicas que eu uso elementos e arranjos de música progressiva. É uma coisa muito sutil. Esse disco não é, nem de perto, de música progressiva. Eu digo que esse disco é de MPB descomportada! Realmente é mais pra MPB, mas tem lance de rock. Este disco é todo feito nos Estados Unidos. Não cheguei lançá-lo e está tocando em rádio espontaneamente.

Seus trabalhos anteriores não são conhecidos por aqui.
O que aconteceu foi o seguinte: eu me mudei para os Estados Unidos por uma razão familiar. Havia me separado do casamento e queria ficar perto de minhas filhas. Foi uma decisão que tomei muito rapidamente. Já havia saído do Vímana e estava tocando com Oswaldo Montenegro. Foi até desagradável porque ele tinha show no Canecão! Eu saí e fui! Quando cheguei lá, não tinha perspectiva alguma. Ma sabia que tinha músico brasileiro em Nova Iorque. Eu queria ficar era em Manhattan, porque é o lugar que eu achava que podia fazer alguma coisa de música. Durante anos, fiquei tocando piano em bares, restaurantes e fazendo tudo que era tipo de trabalho pra sobreviver. Senti que minha história era diferente. Gosto de fazer shows e não de ficar tocando em restaurantes, onde tocava piano solo e choros de Ernesto Nazaré. Não agüentava mais e queria fazer alguma coisa criativa. O mais barato era eu compor um disco inteiro de piano em casa, tudo ensaiado como se fosse música clássica. Resolvi fazer um disco de choro. Chegava no estúdio totalmente ensaiado e gravei o disco em quatro horas, assim ficou mais barato. Eu não tinha dinheiro nenhum! É um disco de piano solo e ensaiado sem improviso. Esse disco "New chorinho from Brazil" foi meu primeiro trabalho para o Estados Unidos.

Como você conseguiu lançar nos Estados Unidos?
Tudo saiu pelo meu selo. Primeiro saiu em cassete e depois transformado em CD. Vendia em shows e posteriormente pela Internet, coisa que faço até hoje. Vendia em lojas, mas elas acabaram. Lá, a venda pela Internet funciona, as pessoas baixam pagando.

Este foi o primeiro. E o segundo disco?
O segundo foi "Recipe for Rhythm", um trabalho junto a uma letrista americana. Era uma pessoa que tinha como produzir discos e essas coisas de dinheiro e coisa e tal. Foi uma produção cara, mas que saiu também independente. Eu achava que com as letras em inglês, que são muito boas, e letras minhas em português, eu conseguiria um contrato com alguma gravadora, mas foi difícil. Não tinha como encaixar o perfil. Quer dizer: Música brasileira em inglês que não é jazz, mas que também não é música brasileira porque está em inglês. Questão de perfil. O terceiro foi "Impromptu", um piano solo todo improvisado.

O Vinícius Cantuária foi para lá e se deu bem.
Mas o Vinicius toca pouco nos Estados Unidos. Ele toca muito na Europa e Japão. Ele armou um esquema muito bom com empresário de shows. Ele conseguiu uma forma de entrar. Eu ainda não consegui. Eu cheguei a tocar na Europa, mas foi coisa esporádica. Toquei no Oslo Jazz Festival na Noruega, que foi mito legal! Toquei no Carnegie Hall, foi muito bom e posso voltar a tocar novamente. Foi uma produção minha e a casa encheu, mas deu um trabalho danado!

Antes de ir embora, você trabalhou como músico em estúdio. E no exterior?
Eu trabalhei muito quando ainda existia o Vímana. Tudo porque fui a primeira pessoa, aqui no Brasil, a ter um sintetizador. Fui nas gravadoras, mostrei que tinha e pronto!

Mas depois que você saiu do Vímana, você se dedicou inteiramente a isso?
Na verdade eu tive uma carreira incipiente aqui no Brasil. Fui contratado pela Ariola para lançar um compacto. O meu nome é Luiz Paulo Belo Simas e nesse compacto foi usado o nome Luiz Belo. Eu tinha um grupo que ia ser chamado de Luiz Belo e As Feras, mas também não emplacou. A banda era eu com músicos contratados, nem lembro os nomes, mas tenho certeza que Chico Sá, que está nesse disco "Cafuné", participava. Este disco não aconteceu nada, era uma fita demo. As gravadoras são meio que loucas. Eles me contrataram por causa de uma música que achavam altamente comercial, mas não me deixaram gravar o lado B porque não queriam gastar mais dinheiro e acabaram colocando o playback do lado A. Na realidade esse disco era de uma época que tinha censura e a música era bobíssima! Não tinha nada demais, mas parou na censura por três meses. Tinha um acerto com rádio que eu não sei qual era. Dentro desse tempo, o cara mudou de emprego, a gravadora se desinteressou e a música ficou perdida. Depois que o Vímana acabou, teve a época que ficamos ensaiando oito meses com Patrick Moraz, tecladista do Yes. Depois disso, fiquei tocando com alguns artistas.

Você tocou com Roberto Carlos?
Com Roberto eu toquei antes do Vímana, numa temporada de três meses no Canecão. Acho que foi o Chiquinho de Moraes que teve a idéia de colocar um sintetizador. Ele falou que, além da orquestra, queria também um sintetizador pra fazer efeitos. Tinha até um teclado que eu podia tocar umas frases. Era uma orquestra grande e eu aguardava a minha hora de entrar. Isso foi na década de setenta. Acho que foi em 1975. O mais engraçado é que meu objetivo era tocar pra juntar dinheiro e comprar equipamentos. Era a única coisa que pensávamos, porque aqui não tinha nada. Ganhava um dinheiro muito bom. Eu ganhava com o aluguel do sintetizador, ganhava como músico e ainda alugava a minha caixa Leslie pra órgão. Quer dizer, eu ganhava três vezes mais que os outros músicos e tocava todo dia. Quando completou dois meses, peguei a grana e fui para os Estados Unidos comprar material para o Vímana. Foi aí que o Lulu (Santos) me pediu para colocá-lo em meu lugar. Eu cheguei a comentar que ele não sabia tocar, mas ele disse que aprenderia. Ensinei o que podia e convenci o pessoal que ele tocava e ele fez o terceiro mês tocando sintetizador com Roberto Carlos. Só que ele não tocava frase e a única coisa que ele tinha que fazer era apertar um botão. Pra não errar, tinha que apertar o botão na hora certa. Quando retornei do exterior, ele contou que teve explosão completamente fora de hora. "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos..." Boom! (risos) Mas ele fez o trabalho. Raul Seixas também foi antes do Vímana, nessa época eu participei de um grupo que o Sergio Dias estava começando. Depois, toquei muito com Oswaldo Montenegro e viajei o Brasil inteiro com ele. Logo depois embarquei para os Estados Unidos. No exterior eu queria fazer uma coisa maior e mais interessante. Eu pensei que quando chegasse lá, ia pegar os anúncios de revista e ver "precisa-se de tecladista" e eu ia chegar e tocar! Só que não foi assim! Primeiro porque eu não tinha mais equipamento e tecladista sem equipamento, é impossível. Outra coisa: Eu era pianista brasileiro e tinha que fazer com que as pessoas acreditassem que eu podia tocar rock ou outras coisas! Acredito que, para o mercado de lá, quem é percussionista se dá bem! Pode tocar com qualquer grupo e qualquer tipo de música. É diferente porque morando aqui no Rio, no Brasil, agente passa vida inteira fazendo contatos e conhecendo pessoas, sempre se arranja ou alguém que mostra o caminho de como você chegar lá! Em Nova Iorque eu tenho um público fiel que criei com trabalho.

Gostaria que você falasse de sua carreira antes do Vímana. A fase que você participou de diversas gravações. Como você começou? Foi com O Terço?
Minha participação no Terço se deu porque eu era do Módulo 1000, tinha aquela aproximação e eles respeitavam o tecladista. As gravações com outros artistas se deram por causa do meu sintetizador. Foi assim que consegui diversas participações. Ganhei um bom dinheiro e comprei equipamentos. Com Raul Seixas eu fiz o zumbido da mosca na música "Mosca na sopa". Tinha um sintetizador na época que tinha vários efeitos. Tinha efeito de gaivota, explosão, mosca... Eu estudei pra saber como fazer os efeitos. Queria dar aulas de sintetizador! Engraçado isso! (risos)

Na verdade a música começou pra você nos anos 60.
Comecei com bossa nova. Estudei piano clássico e ouvia as músicas brasileiras no rádio. Fiquei interessado na bossa nova por causa das harmonias e coisa e tal. Adorava a bossa nova! Já era no rádio e com todos os criadores. Tinha som de bossa nova em minha casa, nas casas de amigos e todos levavam instrumentos pra tocar. Aí, fiz parte do grupo vocal e instrumental que se chamava Agora 4. O grupo gravou duas faixas em LPs de compilação e participou de um dos primeiros Festivais da Canção no Maracanãzinho, com mais um elemento e o nome de Agora-5, defendendo uma música de Sérgio Mendes, "Manhã de Ninguém", que posteriormente teve o nome em inglês de "Look Around". A apresentação foi caótica. Acho que tinha 17 anos de idade. Fizemos parte de uma compilação. Temos duas músicas em disco gravadas antes do Festival da Canção. Depois teve compilação do festival e tivemos músicas incluídas. Antes, teve um disco chamado "Música Nossa" e tivemos duas músicas lá. Era um movimento radical da bossa nova purista. Nós não éramos puristas, tanto que gostávamos da Tropicália! Quer dizer, alguns de nós. Eu gostava muito! Era de nosso interesse porque éramos muitos jovens em relação ao movimento. Queríamos fazer parte de alguma coisa. Com isso, o grupo conseguiu um contrato com a gravadora que hoje é a Universal.

Qual era a formação do Agora 4?
Eu (piano e voz), Luiza (violão e voz), Eduardo Lobo (bateria e voz) e Paulinho (baixo acústico e voz). Esse grupo acabou depois de alguns anos. Posteriormente fui chamado para o grupo de baile chamado Módulo 1000. Eles conseguiram um contrato pra tocar numa boate em São Paulo. Era morar na boate na parte de cima e tocar na parte de baixo todo dia! Era um contrato legal, tinha casa e comida e um dinheiro bom. Isso em 1969, eles me chamaram porque no contrato havia uma exigência em ter um organista na banda. Ficamos lá fazendo baile uns dois anos. Nessa época eu já compunha e queria fazer coisas mais criativas. Baile em SP era pra tocar Jimi Hendrix, Steppenwolf, coisas da época. Nós não éramos da ala da Jovem Guarda, muito pelo contrário, éramos mais psicodélicos e mais loucos. Não existia Instituto Villa-Lobos. Não existia curso superior de música. Fiz Arquitetura depois do Colégio Santo Inácio porque era o curso mais artístico que existia, mas já sabia que ia cair na música.

Então a Jovem Guarda em nada te inspirou?
A Jovem Guarda não, mas Beatles sim! Beatles foi antes de formar o Agora 4. Lembro que íamos a bailes e Beatles era muito tocado, assim como a música francesa e italiana. Então, o Módulo 1000 começou a fazer músicas compostas em português e acabamos encontrando dois compositores que tinham músicas inscritas no Festival da Canção no Rio de Janeiro. Éramos todos cariocas e eles nos convidaram para defender uma música deles no festival. Os compositores eram Vitor Martins e Sergio. Viemos todos para o Rio pra defender a música no festival com o Módulo 1000. Lembro que o Daniel veio com uma cabeleira maior que a do Jimi Hendrix e ainda tinha um ratinho passeando na cabeleira dele. Não ganhamos prêmio nenhum, mas participamos. Participamos também do Festival da Record em São Paulo com a música chamada: "Cavaleiro andante". A trupe que estava defendendo essa música, era a coisa mais louca! Eram Módulo 1000, Quinteto Villa-Lobos, Beth Carvalho, Eduardo Conde e Jorge Antunes, que era um cara de música erudita, todos no palco. Lógico que quem cantava de frente era a Beth e o Eduardo. Retornamos ao Rio e ficamos por aqui. Conhecemos um empresário muito louco, Marinaldo Guimarães, que tinha uma mente mais aberta e queria que nós fôssemos o grupo mais avançado (moderno - atual - na moda) do Planeta. Acabamos fazendo um show dentro de uma lona de circo armado no Largo da Carioca. Tocamos com O Terço e o grupo Sociedade Anônima. Era um show em que os músicos ficavam separados do público por um arame farpado. Teve umas concepções modernas que até hoje eu não consigo entender o sentido, mas era uma coisa surrealista. No palco tinha a mulher do empresário com um fogão fazendo pipoca. O palco era uma arena. Aconteceram coisas muito loucas nessa época, mas eram artísticas.

Foi nessa época que você comprou o sintetizador?
Não lembro se foi nessa época. Mas lembro que no Teatro da Praia, eu já o tinha.

Fale do disco do Módulo 1000.
Nós tínhamos o repertorio todo composto de músicas em português e bem criativas. Nós não pensávamos em fazer um grupo de rock psicodélico, ate porque naquela época nem existia essa palavra. Nós éramos um grupo de... "sei lá o que" (risos). Não éramos rock progressivo porque também não existia essa palavra ainda. Era, talvez, uma banda de rock, mas de música brasileira. Quem conseguiu fazer o disco acontecer foi o empresário Marinaldo Guimarães e o disc-jóquei Ademir Lemos, que ficou sendo o produtor. Era aquele que trabalhava com o também já falecido Big Boy. Ele, Ademir, tinha um contato com a Top Tape e não sei como conseguiu convencer os caras a fazerem o disco. Foi gravado na Musicdisc. Nesse tempo, nosso equipamento era muito tosco. No palco, cada integrante tocava com dois cabeçotes Gianini, porque se um pifasse, teria outro e ficávamos também com um monte de fusíveis no bolso pelo mesmo motivo. Eu sempre sonhei em ter uma caixa Leslie de órgão. O som fica tão bonito, fica rodando rápido ou pode ser lento. Os Mutantes tinham. A base da caixa Leslie é um som saindo de um alto-falante dentro de um invólucro de madeira e também saía uma corneta. Principalmente a corneta, tem que girar. Eu sabia fazer tudo mas não o motor. Entendia toda a parte elétrica, mas de mecânica não. O resto era tubo. Então, o som de Leslie que tem no nosso disco é mecânico. Era o nosso roadie que ficava no banheiro da Musidisc, onde estava a caixa, rodando com a mão! Inclusive, tem o som de voz entrando pela caixa Leslie. Essas loucuras eu tenho saudades e procuro incorporar ao máximo que eu posso em meus trabalhos atuais. Eu acho a música brasileira muito comportada em termos de sonoridades. Quem toca MPB hoje dia, toca com instrumentos acústicos ou com instrumentos eletrônicos, mas não fazem nenhuma pesquisa e fazem sempre o padrão. Eu tenho implicância com isso. O meu disco novo tem pouquíssima eletrônica. Um dia farei alguma coisa mais eletrônica.

Esse disco não aconteceu muita coisa na época, mas virou lenda.
Um dia estava em casa em Nova Iorque e recebi um telefonema da Alemanha. Era um cara perguntando se eu era o Luiz Paulo e se identificou como presidente da gravadora World Sound, dizendo que havia comprado os direitos do disco "Não Fale Com Paredes" do Módulo 1000 e queria conversar com os integrantes da banda. Ele já estava lançando o disco e queria nos pagar. Disse que adorava o nosso disco e que era um rock psicodélico muito bom. Falou que ia prensar mil cópias e que ia mandar uma grana. Não era muito, mas era alguma coisa. Eu fiquei contente porque nunca havia recebido nada de gravadora e muito menos do Módulo 1000, ainda mais depois de estar pronto e lançado. Não quis ficar responsável pelo pagamento dos outros integrantes, porque cada um mora em lugares diferentes e não queira ficar com essa responsabilidade. Ele avisou que enviaria alguns discos pra mim. O disco ficou maravilhoso, fizeram o vinil com três capas iguais ao original. Depois que recebi os discos, perguntei como ele faria o pagamento e ele respondeu: "Eu esqueci de te avisar, o dinheiro está dentro de um disco!" - Dito e feito, havia um disco com dólares! Ele perguntou se eu sabia o valor desse disco original. Na época estava valendo mil dólares. Depois teve prensagem de CD mas foi pirata.

Antes disso, você sabia o valor do disco?
Nem tinha idéia! O Daniel, que é mais ligado, sabia que tinha um certo movimento em volta dele. Isso continua e acabou de sair um livro em Israel escrito em hebreu, que eu não entendo nada, com uma sessão inteira do Módulo 1000. Eles haviam me entrevistado por e-mail. A única palavra que eu entendo é Módulo 1000 e as fotos. Acho que mais cedo ou mais tarde isso poderá acontecer também com o Vímana! O Vímana tem uma gravação. Nós chegamos a gravar um disco e a master sumiu de dentro da gravadora. O Lobão me contou que saiu uma cópia pirata que colocaram palmas pra dizer que é o Vímana ao vivo. Mas essa gravação foi feita da seguinte maneira: estávamos dando uma entrevista para a Rádio Jornal do Brasil e tocaram várias músicas do LP que ia sair e que não saiu! Lembro quando gravamos com um microfone em frente ao rádio. É Essa gravação que as pessoas têm. Dá pra ouvir e eu acho a música super interessante. O compacto existe.

E a fase do Patrick Moraz? Gravaram juntos?
Gravamos alguma coisa dele. Ensaiamos muito. O que aconteceu foi o seguinte. Agora vou falar a verdade, tem muita coisa falada dele que é um exagero. O Patrick veio apresentado pelo Carlos Alberto Sion. O Vímana estava ensaiando em nossa casa em Santa Teresa e tinha uma festa de música. Quando bateram na porta, era o Patrick. Ele tocou, entrou e a gente tocando e coisa tal. Só sabíamos que ele era do Yes. Ele retornou pra Londres. Quando eu o Ritchie fomos a Londres e procuramos o Patrick, entregamos a ele uma fita que era cópia do tal LP do Vímana. Ele escutou, deve ter curtido e ficou com isso na cabeça. Um belo dia, estava em Ipanema na casa de minha mãe, quando ela me chamou avisando que tinha um Patrick no telefone querendo falar comigo. Não lembrava e quando atendi, nossos olhos brilharam! Ele falou que queria encontrar com agente, tinha saído do Yes e queria formar um grupo pra tocar na Europa, viver em Genebra e gravar no estúdio dele... Patrick é uma ótima pessoa em termos humanos e um excelente tecladista, mas exagerava um pouco, como se tudo na Europa estive as mil maravilhas. Só que não era verdade! De qualquer modo, ele tinha alguma perspectiva sim! Começamos ensaiar e o diretor da Chrysalis ouviu e etc. No Vímana, como nós estávamos com vários problemas entre agente... era de grana, de espaço pra tocar... Tínhamos um publico grande, mas não existia rock no Brasil. Eu era o único que ganhava dinheiro. Os shows apareciam, mas ficávamos um mês sem tocar. Isso acabou gerando problemas internos. A verdade é que o Lulu na época... Bem, a gente estava ficando de saco cheio dele como pessoa, a amizade desgastou. Quando o Patrick chegou, falou: "Eu quero muito que vocês formem esse grupo comigo, mas eu não quero o Lulu no grupo". Entendemos o seguinte: se não estávamos nos entendendo muito bem e vem outro de fora e diz isso, estava quase nos mostrando que teria que ser assim. Então o dispensamos. Foi o Vímana que dispensou o Lulu.

Você acha que ele não queria o Lulu na banda porque não queria guitarra?
Acho que são duas coisas. Ele achava o Lulu, provavelmente, muito opinativo e menos maleável. Porque estávamos maleáveis e queríamos ir com ele e o Lulu tinha uma opinião formada! E a outra coisa, é o estilo do Lulu tocar guitarra. Era um estilo muito diferente do que é hoje. Ele toca até bem, mas era muito agressivo. As influências do Vímana na época eram uma e o estilo do Lulu era John McLaughlin, complicado, cheio de harmonia dissonante. É difícil falar isso hoje em dia porque o Lulu é muito pop e essas harmonias dissonantes não eram o que Patrick queria. Eu entendo que era isso e mais o espírito e jeito do Lulu. Ele não queria e nós achamos que era a hora do Lulu deixar o grupo. Eu fui pessoalmente falar com ele que não o queríamos mais e praticamente demos o direito de ele usar o nome da banda. Lógico que ele ficou sentido, mas pra ele foi ótimo porque ele definiu o que ele queria fazer da vida dele. O nome Vímana ficou conhecido depois que Lulu, Ritchie e Lobão ficaram famosos. Agora todo mundo, até na rua, conhece o Vímana.

Ultimamente muitas bandas antigas estão voltando e fazendo shows e gravando, como nos casos de O Terço, A Bolha, Mutantes e as reuniões dos medalhões da música.
Acho impossível fazer uma reunião dessas. Na posição que Lulu está, não faz o menor sentido. Ainda mais que ele fala mal do Vímana. Por esse lado não vai sair mesmo. Na realidade eu odeio nostalgia. Refazer um grupo que existia o que fazíamos na época tinha sentido, agora na tem mais! Eu só me reuniria se fosse pra fazer coisas novas. Eu não vou fazer Módulo Mil e Vímana com regravações. Um dia desse, o Daniel comentou que o pessoal acha legal retornar com o Módulo 1000. Legal por que? Se for pra fazer coisa nova tudo bem! Pode até usar o nome. É uma coisa meio que paradoxo. Ao mesmo tempo em que sou contra a esse movimento nostálgico, sou aberto a tudo. Acho que existe um meio termo de se fazer. Fui ver os Mutantes em Nova Iorque e fiquei impressionado com o número de pessoas na platéia. O show foi muito competente. O Sérgio é meu irmão de música. Eu adoro tocar com ele! Mas fico triste por eles não estarem usando isso pra fazerem coisas novas! Pra mim, o repertório não faz sentido. Seria mais interessante se eles fizessem trabalho novo. Espero que façam um grande trabalho!

Fora sua música, o que você escuta atualmente?
Boa pergunta e difícil resposta. Eu não pessoa que escuta muito, mas escuto variedade e não quantidade. Sou tão envolvido em compor e trabalhar e acabo não parando pra escutar muito. Mas o que escuto e fez minha cabeça no exterior é: Músicas étnicas, folclóricas e modernas. Escutei uma coisa, de um russo que não me lembro o nome, que é muito legal. Escuto jazz. No Brasil eu gosto dos Los Hermanos. Tem outro que absolutamente adorei e que o Lobão lançou na revista dele, Réu & Condenado. De vez em quando eu coloco na vitrola Yes. Eu fico muito feliz cada vez que escuto.

Você falou que a Jovem Guarda não te inspirou em nada. Você acha que foi ali o inicio do Rock Brasil?
Pode ter sido mesmo. Só que na época eu era o oposto, era bossanovista. Quando tinha O Fino da Bossa e Roberto Carlos em outro canal, eu assistia O Fino da Bossa. Eu era Elis Regina, MPB geral! Pra mim, a Jovem Guarda pode ter dado o inicio do rock Brasil. Tem a ver! Eu gravei com Erasmo Carlos. Aliás, quem eu mais gostava na Jovem Guarda era o Erasmo! Pra mim, que curtia bossa nova, achava o Jovem Guarda muito rockabilly e muito simples. Eu queria harmonia e coisas elaboradas.





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