Skank Retoma o Carrossel
Marcelo Fróes
O Skank é uma das poucas bandas brasileiras que pode dar-se ao luxo de sumir por uns tempos. Praticamente parada desde novembro do ano passado, e trancafiada em seu estúdio particular em Belo Horizonte, a banda de Samuel Rosa, Henrique Portugal, Lelo Zaneti e Haroldo Ferretti preparou silenciosamente "Carrossel" e apresentou à Sony BMG. Era só finalizar e soltar, como era de se esperar de uma banda com autonomia artística. O resultado já está nas rádios e na mídia em geral, e em breve divulgação de TV e turnê abrem caminho para um DVD ao vivo. Em entrevista telefônica, às vésperas do fechamento desta edição, Samuel Rosa contou ao INTERNATIONAL MAGAZINE os bastidores da produção deste novo best seller da banda - que já saiu com tiragem inicial de 70 mil cópias, ou seja, já é disco-de-ouro.
No release você fala que este disco "é a síntese da fase 1 com a fase 2".
Bem, o texto não fui eu quem escreveu. Não tenho nada a ver com isso... (rsrsrs) Eu não acho que esse disco sintetize porra nenhuma (rsrsrsr). O fato de ser homogêneo não tem nada a ver com sintetizar fase 1 com fase 2, porque aliás - se sintetizasse fase 1 com fase 2 - seria heterogêneo... porque são duas fases distintas. Mas eu deixei o texto correr por conta do cara.
Qual foi o mote desta nova produção?
O Skank atualmente está voltado e concentra todas as suas forças e todo o seu interesse para esse tipo de música que nós estamos apresentando no "Carrossel" - que não deixa de estar linkado com o "Cosmotron" e com o "Maquinarama". Soa engraçado, e de certa forma não desperta grande perplexidade e espanto o fato de algumas pessoas terem uma expectativa de que o Skank fosse tirar novamente um coelho da cartola - como se agora isso fosse uma obrigação nossa...
Mas vocês tiram, com ou sem obrigação.
Será? Eu acho que não. Não é uma questão de soar uma banda a cada álbum. O lance não é esse. E, de certa forma, o que me deixou um pouco assustado, na ocasião do "Cosmotron", é que as pessoas - talvez por desinformação ou por um certo afastamento - ainda tinham uma noção do Skank muito ligada à questão dos metais, das batidas e tal. É como se não tivesse existido um álbum de transição ali... e que foi o "Maquinarama". As pessoas disseram: "Pô, mas tá diferente pra caramba!" Mas não ta tão diferente assim do "Maquinarama", penso eu. Tem um parentesco explícito ali, da mesma forma que tem entre o "Carrossel" e o "Cosmotron". E essas mudanças fogem ao nosso controle, por mais incrível que possa parecer. Não é uma questão de chegar no estúdio e falar: "Como vamos soar agora?" Não é bem assim, né? De certa forma, a gente é escravo daquilo que a gente escuta e daquilo que nos interessa naquele momento... e daquilo que é valor em termos de música pra nós, no momento em que se faz um disco. E então não teria como o Skank fazer um outro disco que não fosse este "Carrossel". Agora, se muito se falou do "Cosmotron" e, eu faço uma mea culpa de nossa percepção e do próprio release do disco, com aquela conexão com o Clube da Esquina, com os Beatles e com o BritPop. Eu acho que esse disco já está um pouco mais longe dessa cartilha, já é um Skank mais auto-confiante... porém "ainda filiado ao partido"... mas com arranjos próprios. Já estamos mais nos nossos próprios moldes, com uma assinatura mais claro e com uma adaptação não digo mais tropical, mas mais pessoal mesmo. Foi um disco mais desprendido de referências, mais longe da cartilha mesmo.
Vocês entraram em estúdio com 25 músicas?
Não, quando a gente entrou não tinha nada. Começou o estúdio em novembro, sem nada pronto. Ir pro estúdio pra gente não representa nada muito formal, porque estamos em casa, em nosso próprio estúdio, onde sempre fizemos nossas pré-produções e onde até fizemos o "Maquinarama" e o "Cosmotron". A gente começa a compor quando vai pro estúdio, só que dessa vez não paramos de fazer shows... só diminuímos. A gente já parou de fazer show pra se concentrar somente em disco, mas três shows no mês é muito pouco... é só pra pagar as contas do escritório mesmo! Isso na verdade nem nos tirou a concentração do álbum, na verdade até deu uma aliviado. Para uma banda, ficar sem tocar - mesmo que seja por um curto período -, nunca é muito legal... até pra você sentir o que você está fazendo em relação ao que você já fez. Você faz o show e fica pensando nas músicas que ainda estão por vir, como é que elas vão chegar e como é que elas vão funcionar no meio de um repertório com "Vou Deixar", "Amores Imperfeitos" e "Jackie Tequila". É uma viagem gostosa... e o fato da gente hoje gravar em Belo Horizonte nos permite essas saídas, porque antes - quando a gente gravava no Rio ou em São Paulo - toda a estrutura ficava guardada aqui: equipamentos etc. A gente já ficava longe de casa a semana inteira, então no final de semana ficava louco pra voltar. Agora não, a gente está em casa e pode sair pra fazer show no final de semana. Ficou mais tranqüilo e bem mais conveniente, então a gente agora usa deste conforto que lutou pra conquistar. A gente tem estúdio próprio e pode se dar ao luxo de ausentar da mídia. A banda não acaba, se ficar um ano sem aparecer em rádio ou TV. Com essa nova realidade de mercado, a gente começou a trabalhar num esquema quase de banda independente e a gravadora só foi conhecer o disco às vésperas da mixagem. Gravamos algumas bases além das que finalizamos para o disco, mas foram abortadas e ficaram guardadas. É isso.
Você curte muito o pop dos anos 60, recentemente até participou do disco dos Originals cantando "Você Não Soube Amar", versão de Renato e seus Blue Caps para "It's Gonna Be Alright", de Gerry & The Pacemakers.
Aqui no Brasil não tem essa história de valorizar os ícones antigos do pop rock. Eu toquei com Nenê no The Silva's, aquela banda de surf music do Liminha e do João Barone, e de então a gente ficou amigo. Uma vez ele passou uma tarde lá no Nas Nuvens, contando como eram as coisas nos anos 60. Eu tinha que ter pago pelo workshop. Foi de chorar, de arrancar lágrimas mesmo. Parecia que eu estava na frente de alguém do The Hollies ou do Gerry & The Pacemakers ou do Kinks. Ele é foda, ele é história. No Brasil a gente não tem isso, até por desconhecimento ou por desinformação mesmo. Em compensação, uma vez o levei num show do Skank e os caras do Cachorro Grande estavam lá no nosso camarim e só faltaram beijar o pé dele.

Publicado originalmente no
International Magazine Ed. 124
(Agosto, 2006)
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