Dead Fish
"Um Homem Só"
Ricardo Schott
O Dead Fish parecia seguir a cartilha das bandas que vão ser sempre independentes - investindo no próprio trabalho, montando a própria estrutura, etc - até que foi contratada pela DeckDisc. Para felicidade dos fâs, Zero e um, disco de estréia no selo novo (2003) mostrava o grupo afiado, engajado e muito bem produzido, mantendo a linha dos anteriores. O DVD da série MTV Apresenta, que veio na seqüência, dava vários passos além do Ao Vivo que foi seu último lançamento independente, e mostrava o Dead Fish em seu verdadeiro habitat, com mais recursos. E o grupo mostrava que bandas que engoliam tesouradas em seu repertório e em seu conceito ao entrarem para uma grande gravadora - mal que nos anos 80 acometeu bandas recém-saídas do underground, como os Cascavelletes - eram coisa do passado. Só que, no caso do DF, não poderia ser de outro jeito, mesmo. Ninguém aceitaria um Dead Fish mais polido, talvez nem a própria gravadora.
Em Um Homem Só, a banda não brilha como em discos anteriores - o melhor continua sendo Afasia, de 2001 - mas mantém a linha de sempre lançar álbuns interessantes, com novidades no som e nas letras. As melodias estão se destacando cada vez menos pela rapidez e cada vez mais pela sua elaboração - em especial nas linhas vocais e nos riffs de guitarra. Mas foi mantida a urgência característica do Dead Fish. Há os riffs palhetados de "Destruir tudo de novo", punk cruzando Bad Religion e acordes sombrios típicos dos anos 90 ("Didático"), o grito de guerra de "Rei de açúcar", a rapidez quase metálica de "Oldboy", o punk feroz de "Fora do mapa", o rock'n roll unindo punk rock e The Cult de "Exílio", o triste hardcore de "Canção menor" etc. As letras abandonam a rispidez de outrora para entrar em papos cada vez mais introspectivos ou em recados interessantes - como o de "Menos do mesmo", que ataca "o compromisso em satisfazer/entreter como obrigação/será que está aqui o que precisa?/procurando seus clichês nos meus".
No mais, há pouco do tal do "emo" nas canções do Dead Fish - que, para atingir fâs, não fizeram concessões nem letras militantes e panfletárias (esta, uma verdadeira tentação em ano de eleição, visto que até Felipe Dylon veio com papos "conscientes" em seu novo disco). Quando soam políticos - pelo menos no aspecto mais óbvio do termo - mantém a linha das outras letras em faixas como "Eleito por ninguém" e "Um homem só".
A Deck também repôs nas lojas a discografia anterior da banda - ou melhor, pôs nas lojas, visto que eram CDs independentes, com distribuição restrita. Para os fâs radicais, faltam apenas o EP lançado em 2002 com sobras de Afasia e o Metrofire, do Projeto Peixe Morto, banda paralela lançada pelos músicos do DF, com letras irônicas como "Tim Maia" (um assalto à "Telefone", do soulman, só que com a melodia totalmente modificada) e "O soco racional". Com distribuição nacional e ótima estrutura, a banda de Rodrigo (voz), Alyand (baixo), Nô (bateria) e dos guitarristas Philippe e Hóspede tem tudo para se tornar, para os anos 00 - guardadíssimas as devidas proporções - o que a Plebe Rude foi para os 80. Só que com apoio da gravadora, com um pouco mais de consciência comercial e com a sorte de lidar com pessoas que realmente entendem seu som.

Publicado originalmente no
International Magazine Ed. 125
(Julho, 2006)
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