Alice Coper
"Good to see you again"
"Live in Montreux"
Jorge Albuquerque
O figuraça Alice Cooper foi o mais "showman" do rock nos anos 70, e seus shows eram somente igualados em pirotecnia e, de certa forma, teatralidade por uma outra banda, o Kiss. O curioso é que a meninada de hoje conhece o nome do Kiss, mas o de Alice Cooper perdeu-se misteriosamente no tempo, apesar do incrível sucesso que experimentou.
Na verdade, o Alice Cooper é uma banda, liderada pelo alter ego Vincent Damon Furnier, que formou seu primeiro grupo no começo dos anos 60 e que, após mudar algumas vezes de nome, chegou ao de Alice Cooper, conta a lenda, depois de Vincent passar por uma sessão de magia, onde foi dito que ele seria a reencarnação de uma bruxa do século 17 do mesmo nome. Em 1968, Vincent, com os guitarristas Mike Bruce e Glen Buxton, mais o baixista Dennis Dunaway e o batera Neal Smith, mudaram-se para a Califórnia, contratados pelo selo Straight Records de Frank Zappa.
Quando os dois primeiros LPs falharam em chamar atenção e forçou a banda a voltar para Detroit, Vicent passou a arquitetar um tipo de show bizarro, inspirado em filmes de terror, para atrair a platéia. No final de 1970 se transferiram para a Warner e conheceram o produtor Bob Ezrin, que seria uma figura essencial para o som do conjunto. Com a mistura de garage rock com heavy metal, vaudeville e trem-fantasma, o Alice Cooper construiu rapidamente sua fama em cima de muitos peso, decibéis e jogo de cena, com o palco lotado de guilhotinas, cadeiras-elétricas, equipamentos de tortura e muito sangue de mentirinha. A essa altura Furnier já se apresentava como Alice e liderava um dos mais bem-sucedidos e elaborados shows de rock da época, com a banda também detonando álbuns nas paradas, como o clássico "Love it to death", de 1971, com o hit "Eighteen".
Com o excelente trabalho de Ezrin no estúdio, o Alice Cooper imprimiu uma característica própria em sua música, rivalizando com as melhores bandas de rock pesado. Discos de Platina coroaram petardos como "Killer" e seu maior sucesso, "School's out" de 1972, com mais de um milhão de discos vendidos e a ótima canção título chegando ao topo das paradas norte-americanas. No ano seguinte, o mundo veria não só o estonteante lançamento do também platinado "Billion dollar babies", primeiro lugar nos Estados Unidos e Inglaterra, puxado pelo hit "No more Mr. Nice Guy", como um dos mais ambiciosos espetáculos da música pop, com shows milionários e lotados. Como geralmente acontece quando se chega a essa parte da história, sucesso demais e vários problemas internos de relacionamento implodiram o conjunto depois do álbum seguinte, "Muscle of love", no finalzinho de 1973. Furnier e o resto da turma se separaram em projetos pessoais, com Vincent (oficialmente rebatizado de Alice Cooper) em carreira solo e o resto gravando sob o nome de Billion Dollar Babies. O sucesso continuou com Alice até o seu problema com o álcool forçá-lo a se internar para reabilitação. Desde então, ainda lançando discos desde os anos de 1980, o Alice Cooper virou história.
Parte dessa história é agora recontada em dois extraordinários DVDs, um no ápice da fama, em 1973, com o registro precioso da turnê de "Billion dollar babies" em filme, e o outro, uma apresentação no festival de Montreux, em 2005, oportunidade para fazer o levantamento de nada menos que 35 anos de carreira. Começando pelo primeiro, captura a impressionante loucura teatral do Alice Cooper e os famosos excessos do rock dos anos de 1970. Todo o "glam" e o podreroso heavy metal de cabaré do Alice Cooper foi filmado para ser apresentado no cinema (geralmente dentro do celebrado circuito dos "midnight movies"), registrando os shows nas cidades de Dallas e Houston, um enorme sucesso comercial para época.
O grupo desfila performances de "No more Mr. Nice Guy", "I'm eighteen", "Elected", "My stars", "Billion sollar babies", "Under my wheels", "Unfinished sweet", "I love the dead" e "School's out", entre outras pérolas. Com o áudio remasterizado (incluindo 5.1 Surround Sound mix) e a imagem restaurada em alta definição, ainda dá para perceber nitidamente como era estranho o Alice Cooper em 1973. Com o título original de "Good to see you again", as filmagens foram cercadas de lendas e histórias, e alguma coisa é revelada nos comentários em áudio do próprio Cooper que acompanha essa nova versão, que traz como guloseimas a performance em estúdio de "The lady is a tramp", cenas deletadas, alguns "outtakes", o "trailer" original, biografia e segredos escondidos em "easter eggs".
"Live in Montreux", em comparação, é mais comportado. Divulgando o seu mais novo disco, "Dirty diamonds", para o fã não deixa de ser interessante e serve como dobradinha. Em comparação aos filmes sangüinolentos de terror de hoje e ao noticiário das oito, Alice não choca mais como antigamente, mas continua um excelente mestre de cerimônias de um show divertido e até bastante pesado, ainda com direito a guilhotina, camisa-de-força etc. Com o apoio de uma excelente banda (com destaque para o baterista Eric Singer, ex-Kiss), Alice faz um inventário da carreira com "No more Mr. Nice Guy", "Welcome to my nightmare", "Dirty diamonds", "I never cry", "Billion dollar babies", "I'm eighteen", "What do you want from me?", "Feed my Frankenstein", "Only women bleed", "Killer", "I love the dead", "School's out", "Poison" e "Under my wheels". Encartado junto com o DVD, um CD com o áudio do show. Dose dupla de Alice Cooper.

Publicado originalmente no
International Magazine Ed. 125
(Julho, 2006)
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