Emerson, Lake & Palmer
The birth of a band
Poder & glória da noite pro dia

Jorge Albuquerque
Prosseguindo com as reedições em DVD dos documentários musicais de um dos mais famosos especialistas no gênero, o americano Murray Lerner, para o lendário festival da ilha de Wight, em 1970, o concerto do Emerson, Lake & Palmer era um dos mais aguardados pelos fãs. Com o sucesso das recentes incursões pelos shows de Miles Davis, Jimi Hendrix, The Who e Jethro Tull durante aquele festival, "Emerson, Lake & Palmer - The birth of a band" (ST2) registra o primeiro, propriamente dito, show do trio para o mundo - a única apresentação anterior tinha sido um dia antes para uma pequena platéia na cidadezinha de Plymouth como "aquecimento". Para a noite de Wight, a banda tocou para um público estimado em mais de 600 mil pessoas, num dos maiores concertos da história do rock. O conjunto ainda não tinha lançado sequer o seu álbum de estréia, mas após aquele show se transformaram em estrelas da música pop literalmente da noite para o dia. A imprensa britânica foi unânime em apontar o virtuosismo da trinca e toda a nova sonoridade que nascia junto com a banda. Dali em diante tornar-se-iam recordistas em venda e um dos maiores baluartes do chamado rock progressivo, então emergente na Inglaterra e no resto da Europa.
"Emerson, Lake & Palmer - The birth of a band" é um deleite para os fãs do power trio, historiadores do rock e saudosistas de um modo geral dos fartos excessos dos anos 70. Testemunhado no DVD pelos próprios protagonistas do evento, o tecladista Keith Emerson, recém-saído do famoso The Nice, o baixista e cantor Greg Lake, do badalado King Crimson, e o percussionista e baterista Carl Palmer, do Atomic Rooster e do ensandecido Crazy World, do artista de vanguarda Arthur Brown, cada um dos três era apontado na época como o melhor em seu instrumento no mundo. A expectativa em torno do super-grupo era enorme, montado à semelhança do Cream e do Jimi Hendrix Experience - substituindo a importância da guitarra pelo poder de fogo dos teclados, como o órgão Hammond e o sintetizador Moog. Inclusive a banda foi a primeira a levar o lendário Moog para fora dos estúdios, desenvolvendo a tecnologia da atual música digital, abrindo novas fronteiras para a música pop e influenciando toda uma geração.
Responsável por shows grandiosos e por uma parafernália musical, que chegou a incluir uma polêmica excursão mundial ao lado de uma orquestra sinfônica no fim da década de 70, a qual acabaria por falir a banda, o trio entrou para a história como uma das mais bem-sucedidas mistura de rock, jazz, música erudita, pop, até hoje admirada. Essa história toda começou naquela noite de sábado, 29 de agosto, na ilha de Wight, há 36 anos atrás.
Apesar de ser tecnicamente o segundo show do grupo, o registro do concerto em "Emerson, Lake & Palmer - The birth of a band" é considerado como a estréia da banda, e dessa maneira fica claro o nervosismo do trio no palco do festival, confirmado pelos depoimentos dos três na edição do DVD. Usando as imagens e o som (direto do "soundboard") das gravações originais, agora totalmente recuperadas e remasterizadas, o DVD é uma experiência real para os sentidos, mostrando o poder & glória do Emerson, Lake & Palmer no seu exato momento de explosão e do prematuro sucesso. O primeiro disco sairia poucos meses depois, mas a banda já estava afinada, nos cascos, executando com técnica apurada, em pleno palco, um set list exigente, com as versões para as clássicas "Pictures at an exhibition", do compositor russo Modesto Mussorgski, "Rondo" (versão de Emerson para o "Blue rondo" do jazzista Dave Brubeck), a suíte sinfônica "Nutrocker" e a composição original "Take a pebble", incluída mais tarde no repertório do disco inaugural "Emerson, Lake & Palmer".
As filmagens capturam a energia e a pirotecnia musical dos três músicos, registrando inclusive a divulgada salva de tiros de canhão (de verdade!) que balançou o palco. Pouco da confusão monumental do evento é contado aqui (documentado no ótimo DVD "Nothing is easy" do Jethro Tull, perfeito complemento para este do Emerson, Lake & Palmer), e as ressalvas ficam por conta da pouca duração, a inserção repetida de cenas dos músicos para os buracos não recuperados das filmagens e, principalmente, a ausência daqueles deliciosos extras. De qualquer forma é um item obrigatório para os fãs do grupo e para o surreal imaginário do pop.

Publicado originalmente no
International Magazine Ed. 124
(Agosto, 2006)
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