Gnarls Barkley
"St. elsewhere"
J.M. Santiago
Afinal de contas, quem é Gnarls Barkley? Melhor, o que é o Gnarls Barkley? Depois que a ficha cai, fica mais fácil de se compreender não só o sucesso da parceria do DJ Danger Mouse com o rapper Cee-Lo como a criatividade da química entre os dois. Mouse é aquele cara responsável pelo "The grey album", o produto "pirata" da mistura do "álbum branco" dos Beatles com o "The black album" de Jay-Z, que deu na maior quizumba com a gravadora EMI (que depois desistiu de processá-lo) em 2004, que pela sacação da idéia e as soluções sônicas atraiu um artista daquela mesma gravadora, o Damon Albarn do Blur, que o convidou para o cockpit de outro projeto, o segundo álbum do Gorillaz. "Demon days" já bateu na casa dos mais de 5 milhões de discos vendidos e a estréia, logo depois, do primeiro disco "solo" de Danger, "The mouse and the mask", ultrapassou no Reino Unido a marca de 100 mil cópias.
Apontado com o "Homem do ano" pela GQ e o "Gênio excêntrico do ano", em 2005, pela Spin, além de o "Mais quente produtor de hip-hop do mundo" pela NME e concorrer ao Grammy como "Produtor do ano", Mouse se viu com uma carta branca na manga para o fazer o que bem entendesse. O que poderia ser perigoso, se msotrou perigosíssimo. Chamou o amalucado e também excêntrico cantor do Goodie Mob, o rapper Cee-lo, compositor e o produtor do hit "Don't cha" do Pussycat Dolls e para gente como Ludacris, Common, P Diddy e Trick Daddy, a embarcar numa trip de hip-hop, R&B e funk batizada de Gnarls Barkley.
Os dois se encontraram no quartel de Cee-lo na cidade de Atlanta, Estados Unidos, revolvendo o que havia de moderno e o (pouco) que presta na atual música pop e o que ainda existia de relevante no som dos anos 70 para esse novo projeto. "St. elsewhere" é o resultado e a canção "Crazy" um dos seus maiores sucessos, o primeiro single a alcançar o topo da parada inglesa pelo sistema de distribuição digital.
Mas "St. elsewhere" é na verdade o melhor e mais excitante disco de música pop negra desde Sly Stone (ou pelo menos desde o último do Outkast) e composto pelo que há de melhor na produção de "Demon days". As composições originais, o uso inteligente do "sampler", a facilidade para comandar a banda de músicos que tocam no disco, o foco na execução do trabalho e a inventividade no cada vez mais restrito mundo musical do hip-hop, Danger Mouse vai além da pequena jóia de "Crazy", na perseguição desenfreada por soluções harmônicas, na atmosfera cativante, o arranjo perfeito para cordas, o uso do órgão, os riffs de guitarra, o sacolejo da percussão, a pulsação dos beats, etc e tal. "Necromancer", "Who Cares?", "Storm comig" e "The boogie monster" são alguns dos exemplos. E Cee-lo Green, enfim, encontra o terreno fértil para surgir como um cantor de soul excepcional. Ampliando as fronteiras do pop com elementos quase perdidos de progressivo, psicodelia e música erudita, o Gnarls Barkley realizou o que é provavelmente o melhor disco de 2006.

Publicado originalmente no
International Magazine Ed. 125
(Julho, 2006)
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