Lançamentos
Jimi Hendrix
Collector's Edition

Jorge Albuquerque

O homem certo, no lugar, numa hora incerta. Quando Jimi Hendrix colocou os pés, a guitarra e sua banda no palco do Festival de Woodstock já eram as primeiras horas de segunda-feira, dia 19 de agosto de 1969. Oficialmente já haviam acabado os três dias de paz e música na fazenda de Max Yasgur, mas foi o dia em que Hendrix entrou definitivamente no colorido imaginário pop do século XX. Pouco mais de um ano depois, em 18 de setembro de 1970, Jimi morreu em Londres quando estava prestes a completar 28 anos. Deixou um legado imensurável. Como um genuíno herói de seu tempo, um ícone talhado à perfeição pela época que representou, permaneceu condenado a nunca ser esquecido, tanto pelo o que fez para a evolução da música pop ou pelo seu instrumento. Para quem deseja entender tanto o homem, o músico e a era de Hendrix, um interessante começo poderia ser pela caixa de dois DVDs "Jimi Hendrix- Collector's edition" da ST2, que reúne em um mesmo pacote o precioso documentário "Electric ladyland", que resgata a memória da gravação do famoso álbum de Hendrix, e o filme "hippie" e controverso "Rainbow bridge", que vale unicamente pelo registro histórico da aparição do Experience num vulcão inativo, no Havaí em julho de 1970. Vamos ver a seguir cada um em separado.

A ótima e útil série "Classic albums" da Eagle Vision ganha um episódio pra lá de interessante abordando as curiosidades e o diário de gravação deste que é um dos mais importantes dicos da história da música pop. Um divisor de águas, "Electric ladyland" até hoje influencia as novas gerações de roqueiros e pesquisadores, pela então inusitada mistura de rock, jazz, música erudita e folk. Com a participação e o testemunho dos colegas do Experience, como o do recém-falecido baixista Noel Redding e do baterista Mitch Mitchell, e de músicos convidados para o disco, como Steve Winwood e Dave Mason (no período, ambos integrantes do Traffic), mais o empresário e músico do The Animals Chas Chandler (também já morto) e o lendário engenheiro de som Eddie Kramer, que ajudam a esclarecer e revelar alguns pontos importantes na confecção do álbum. Lançado originalmente em 1968 como LP duplo, "Electric ladyland" foi uma prova que Jimi era genial também no estúdio e um músico e arranjador sério e compositor completo, e não apenas aquele inflamável guitarrista nos shows. A pressão do "circo" da fama e a indústria do disco acabaram por soterrar suas ambições, mas o documentário mostra à perfeição a mestria de Hendrix faixa por faixa ("All along the watchtower", "Still raining still dreaming", "Gypsy eyes", "Crosstown traffic", "Voodoo chile"), somado a imagens raras de arquivo e algumas pérolas, como o vídeo promocional de "Burning of the midnight lamp".

"Rainbow bridge", por fim, é uma peça de museu da contracultura, bizarro e polêmico, estrelado pela atriz Pat Hartley, numa trama confusa e que pouco importa. O importante mesmo é a incendiária apresentação de Jimi Hendrix á sombra do vulcão Haleakala, no Havaí, para uma comunidade hippie local (Rainbow Bridge Occult Meditation Center em Maui). Jimi ainda contracena numa pequena ponta, mas o valor de "Rainbow bridge" reside na realidade na impressionante fúria do Experience (com o baterista Mitch Mitchell e o baixista Billy Cox) no curto e poderoso set list com "Purple haze", "Foxy lady" e "Voodoo chile". O filme foi restaurado e recuperado em seus 125 minutos de duração, do único rolo de 16mm existente. O DVD ainda traz entrevistas com Hendrix, onde ele fala de psicodelia, algum misticismo e da morte, num incômodo tom profético - Jimi faleceria três meses depois das filmagens.

"Jimi Hendrix- Collector's edition" é essencial na prateleira de qualquer fiel admirador do músico e item para os colecionadores das loucuras cometidas nos anos 60. Genial.


Publicado originalmente no
International Magazine Ed. 124
(Agosto, 2006)


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