Keane
Under The Iron Sea
Não comparar o Keane com o Coldplay é quase uma impossiblidade. Ou era. No primeiro disco deles, Hopes and fears, nego cantou essa pedra direto - e pelo que tenho ouvido falar por aí, ainda tem gente dizendo isso. Pois agora o Keane lançou Under the iron sea (Universal), disco que, pelo menos de acordo com a minha observação, subverte o caminho natural das coisas. O Keane veio de um disco que, para mim, não passou de um lançamento mediano, que não deixou claro a que vinha o hype formado em torno da banda - e lança agora um segundo disco bem melhor, mais amadurecido e claro na sua proposta de... bem... um soft rock com toques de Radiohead, Coldplay e outras bandas experimentais do tipo? Seria isso?
Se for, a banda acertou em cheio. E, vá lá, no segundo álbum, o Keane - os lamurientos Tom Chaplin, vocais; Tim Rice-Oxley, piano/baixo/vocais e Richard Hughes, bateria/vocais - vem com uma cara de U2 que até assusta. O disco tem tudo pra estourar e chamar atenção na novela das oito - e com certeza o mundo televisivo vai estar mais feliz ouvindo os caras do que aturando o último sucesso maleta do James Blunt.
O Keane segue uma tendência que já chamou a atenção em bandas como o Ben Folds Five: não há guitarras. O disco foi gravado apenas pelo trio, com baixo, piano e bateria, além das programações do produtor Andy Green. Sem a tecnologia - e assim acontece com um dos maiores inspiradores do grupo, o Radiohead, que tematizou os novos tempos no afamado OK Computer - talvez o Keane sequer existisse. Ouvindo o disco, pega-se uma série de sons que parecem até guitarras, mas são teclados; parecem até sintetizadores, mas devem ser pianos gravados com algum truque maluco de gravação. Como dizia aquele bom e velho reclame: "não é feitiçaria, é tecnologia". E conquista fâs - o primeiro álbum vendeu quase 5 milhões de cópias no mundo todo, rendeu dois prêmios no Brit Awards e uma indicação ao Grammy na categoria de melhor banda nova. E rende histórias cabulosas: a banda quase acabou no meio das gravações, por causa de estresse - o pianista Tim botou a culpa no fato do Keane não ter parado pra descansar após o fim da primeira turnê.
A fórmula do bom pop do grupo encontra lá seus momentos de doideira em "Crystal ball" - que começa com uma introdução psicodélica enorme, quase dando a entender que a música vai ficar só nisso ou vai render apenas um bom instrumental - ou na viajeira e romântica "Broken toy". O disco segue essa proposta, usando o "rio de metal" do título como metáfora para uma certa confusão e desencanto das letras - que, para quem saca um mínimo de inglês, podem ir do profundamente poético ao completamente brega em questão de segundos. O disco tem de baladinhas absolutamente soft-rock ("Try again", breguinha e linda de doer) a sons aparentados a Bono Vox & cia ("Is it any wonder?" e "Nothing in my way") e coisas meio Coldplay-pop (a bela "A bad dream"), carregando em baladas de piano e experimentações de timbragem comsintetizadores, pedais, distorções, etc. Um som mais rock e oitentista aparece em faixas como a dançante "Put it behind you". Under the iron sea é um disco belo e, vá lá, poético, da maneira dele. Mas faço até aposta de que vai aparecer algum engraçadinho chamando o Keane de "filhote emo do Radiohead". Eu vou prender o riso.

Publicado originalmente no
International Magazine Ed. 124
(Agosto, 2006)
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