Mark Knopfler e Emmylou Harris
All The Roadrunning
J.M. Santiago
"Shangri-la", o aguardado quarto disco solo de Mark Knopfler, lançado no final de 2004, não foi o retorno, apregoado, ao bom rock que lhe deu fama. Foi o seu primeiro trabalho depois do grave acidente de moto que sofreu no em 2003, mas o disco ainda não lembrava o homem que ficou mundialmente conhecido como líder do grupo de rock Dire Straits. Quase saindo dessa vida sem se despedir, Mark na verdade passou a burilar o lançamento finalmente de um velho e querido projeto. Mas nada que pudesse tirá-lo do sossego. Ele sempre pareceu um pouco incomodado com a fama de astro do rock.
Figura reservada e um músico lotado de idéias, relembrando, começou com passos não tão firmes para o estrelato logo no primeiro disco do Dire Straits. O sucesso foi uma surpresa. O mega hit "Sultans of swing" tocou sem parar tanto no Reino Unido como nos Estados Unidos e no resto do mundo, e o que era gaiatice para ganhar o pão e o leite das crianças transformou-se num incômodo. Embora surgido no período do pós-punk, no final dos anos 70, o Dire Straits se inclinou mais para a mistura de country, jazz e blues-rock pela influência de Mark. Ele que desde o início era principal compositor do conjunto, passou a ser a figura central e o ponto de referência não só dos fãs como da crítica.
O Dire Straits se tornou assim uma espécie de alter ego de Knopfler. Ao longo da sua existência o grupo não só foi um recordista de vendagens, bantendo até hoje a marca de mais de 110 milhões de discos vendidos, quebrando recordes com o álbum "Brothers in arms" de 85, como também pioneiro numa série de projetos (o desenvolvimento do compact disc e no surgimento da MTV). Nada mal, não fosse a timidez e a personalidade reclusa de Knopfler.
A vontade de gravar solo veio após a exaustiva mega turnê mundial para promover o último álbum do Straits, "On every street" de 1991. Antes, o cantor, compositor, guitarrista e produtor havia colocado seu nome apenas em algumas composições para o cinema ("Local heroe", "Cal", "The princess bride", "Last exit to Brooklin", "Wag the dog" e "Metroland"). Gravando solo as pressões desapareceram e Knopfler se sentiu a vontade o suficiente para compor e tocar a música que bem desejasse - o que não significava ser parecida com a do Dire Straits. Muito pelo contrário.
O novo disco, ou melhor, o novo projeto traz toda a bagagem de influências de Mark Knopfler, diferente da alta octanagem do rock, na encruzilhada do blues, no requebro sentimental dos anos 50 & 60, servido com a paixão pela country music. Na verdade é um trabalho feito quase em parceria, c#1B74A9itado a Mark e à sua famosa e gentil amiga Emmylou Harris. "All the road running" parece ter saído de um fim-de-semana no estúdio, pela espontaneidade e o registro quase orgãnico das 12 faixas. Mas não. É o fruto de anda menos do que sete (!) anos de dedicação, carinho, mas falta de tempo de colocar tudo em disco.
Talvez o acidente colocou realmente o disco como prioridade. Seja como for, "All the road running" foi gravado através dos anos um pouquinho aqui, um pouquinho ali, e não merecia tamanha demora. É um ótimo disco, apesar de incomodar os ouvidos menos acostumados com o country. Não importa Knopfler assinar dez faixas e a musa Harris, apesar de uma poderosa e prolífica compositora, ter composto duas ("Love and happiness, "Belle starr"), o disco transpira e prova parceria. Faixas como "This is us", a blueseira "Right now" e uma bela e triste balada (inspirada nos eventos do World trade center) "If this is goodbye" valem-se da guitarra hipnótica e da voz susurrada (herança de Bob Dylan) de Knopfler e da voz límpida tradicional de Emmylou para alcançar e emocionar o ouvinte. Um disco bonito, melancólico, fino, não para todos os paladares, mas uma obra sólida. Deixe o rock para depois.

Publicado originalmente no
International Magazine Ed. 123
(Julho, 2006)
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