Massive Attack
Collected
Jorge Albuquerque
Um dos nomes mais inovadores e relevantes de sua geração, o que já é um feito, o conjunto Massive Attack foi um dos pioneiros do trip-hop e na fusão do esquizofrênico hip-hop com o dub e a sonoridade melancólica dos anos 90.
Depois da aterrisagem do grupo se abriu o caminho para bandas como Portishead e gente boa como Beth Orton e Tricky - este, ele mesmo, um ex-integrante do Massive. O embrião do "ataque" remonta ao início dos 80, ao Wild Bunch, um dos primeiros a fazer uso, com sucesso, das equipes de som movidos a DJs no Reino Unido, tocando punk, reggae, passando pelo r&b, e as festas coordenadas por eles se tornaram rapidamente a principal atração da cena musical e de clubes da cidade de Bristol.
Com a dissolvição do Wild Bunch, Grant 'Daddy G' Marshall e Andrew 'Mushroom' Vowles decidiram formar, ao lado do artista local (e graffiteiro) Robert Del Naja, aquilo que viria a ser, em 1987, o Massive Attack. Outro ex-integrante do Wild Bunch, Neele Hooper, também ficou algum tempo com a banda, ao mesmo tempo em que lidava com o seu próprio projeto - o Soul II Soul. O primeiro single, "Daydreaming", apareceu no ano de 1990, com um rap de Tricky - outro ex-colaborador do Wild Bunch. No ano seguinte, saiu o álbum de estréia "Blue lines", época em que #1B74A9uziram o nome para apenas Massive, curiosamente a fim de evitar ligação com o jargão usado então pelas Nações Unidas com a invasão do Iraque pelas tropas norte-americanas. Três anos depois, usando o nome novamente de Massive Attack, gravaram o bem-sucedido "Protection" com Hooper e Tricky.
A fama cresceu com trabalhos de "encomenda" para o Garbage e até para Madonna. Em 1998, o álbum "Mezzanine" superou todas as expectativas, fez um enorme sucesso internacional e cristalizou a proposta musical do conjunto, tornando-se uma espécie de grupo cult tanto do pessoal antenado como da crítica britânica. Quando tudo parecia nos "trinques", o descontente Vowles pediu o boné. Del Naja e Marshall seguiram como duo, trabalhando com gente como David Bowie, mas pouco tempo depois sobrou apenas Del Naja. "100th Window", quarto disco, foi quase um trabalho solo de Naja. Em 2004, demorou, mas o Massive Attack finalmente entrou para o clube fechado dos trilheiros de cinema com a música para o filme "Danny, the dog". Para 2006, quando ninguém esperava, Del Naja decidiu montar uma improvável compilação da carreira do conjunto. "Collected" é uma jóia rara.
A música hipnótica, cinematográfica, sensual, meditativa, viajante, pulsante do Massive já fazia por merecer uma coletânea fazia tempo. "Collected" faz um trabalho competente em agarrar pela cintura tanto os "hits" quanto pegar pelo pé as filigranas de músicas menos conhecidas, mas mais representativas da trajetória. "Collected" não é simplesmente uma mera obrigação contratual (já deu para notar que a banda é "lenta" para lançar novos discos), mas um projeto matador que finalmente levanta o inventário do conjunto em 15 anos de existência - e ainda dedica aos fãs uma faixa inédita, o blues soul eletro de "Live with me", enquanto não vem o novo disco (que dizem já estar no forno).
Duplo, ainda assim o lançamento nacional é incompleto, deixando de fora os clipes, o visual do Massive, que lá fora foi lançado como um terceiro disco ou pelo sistema (mais inteligente) do "dual disc". Pelo menos a música (ainda chegará a época que nem isso) a gravadora no Brasil deixou intacta. A coleção concentra principalmente na música de "Blue lines", "Protection", "Mezzanine" e "100th Window" o seu foco, deixando de fora colaborações para algumas trilhas e os famosos mixes do grupo - "Danny the dog" surge apenas com a faixa-título. "Sucessos" como "Safer from harm", ""Butterfly caught", "Teardrops", "Inertia creeps" e "Karmacoma" estão todos no disco, e servem como introdução ao mundo do Massive Attack.
Também estão na coletânea, as famosas baladas sinistras como a bela "What your soul sings" e "Unfinished sympathy", onde desfilam musas, numa sucessão de cantoras do primeiro time que sempre acompanham o grupo nas peripécias como Sinéad O'Connor, Shara Nelson e Eliabeth Fraser (insuperável em "Black melt") do Cocteau Twins. Comparecem ainda as vozes de Mos Def ("I against I"), de Horace Andy ("Incantations"), Debbie Clare ("Joy luck club") e os backing de Damon Albarn ("Small time shoot 'em up"), além da diva pop Madonna na reedição de "I want you" para um tributo à memória de Marvin Gaye. No final das contas, um disco imperdível, reunindo hits, raridades, curiosidades, um "best-of" na melhor forma. Ao ataque.

Publicado originalmente no
International Magazine Ed. 123
(Julho, 2006)
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