Neil Young
"Living with war"
O cantor, compositor e guitarrista canandense Neil Young há muito que não tem nada a provar. O homem é um ícone dos anos 60 que conseguiu alcançar duas façanhas: primeiro manter-se vivo; a segunda, manter-se relevante por mais de quatro décadas. Como então discutir qualquer novo trabalho desse homem? O cara está naquela estreita linha, naquele clube ultrafechado, dos tais "fora de competição", dos indiscutíveis. Se bem que isso é discutível. A sua volta às raízes country poderia render outros tipos de comentário, mas o sujeito é também avesso a saudosismo e a especulações que fariam outros artistas se sentirem elogiados. Young adquiriu a duras penas uma autonomia que faz falta à maior parte dos seus colegas de profissão, principalmente os seus contemporâneos que aceitam como benção qualquer projeto proposto por um jovem executivo de gravadora em troca de um contrato. Ainda há aqueles que se vendem fácil pelo dinheiro fácil e pelas artimanhas de um empresário qualquer que desconheça a importância do artista. Exemplos não faltam, sendo o mais gritante o de Rod Stewart.
Para Neil Young pensar e entrar no estúdio são dois atos indissociáveis. Neil toma decisões e elas são independentes de que qualquer modismo que as retraiam. Longe de escrever para o seu umbigo, Young sabe que sempre encontrará uma platéia com o desejo de ouví-lo. Foi assim que se dirigiu à Nashville, templo da música country norte-americana, e se enfurnou com um bando de músicos liderado pelo produtor Ben Keith, e mais alguns integrantes do Memphis Horns e dos cantores do coro gospel do Fisk University Jubilee, para sair com um disco na mesma esteira da maturidade artística que gerou os clássicos "Harvest", de 72, e "Harvest moon", de vinte anos depois.

Lançado no finalzinho do ano passado, "Prairie wind" foi um pequeno presente para quem ac#1B74A9itou e esperou com perseverança passar a maré de cinismo de Young nos últimos trabalhos (a "ópera" Greendale" e o niilista "Are you passionate?"). "Prairie wind" não figura ao lado dos trabalhos mais significativos de sua trajetória, mas era provavelmente o melhor disco dos últimos dez anos de sua carreira. Levando-se em conta sobre quem falamos, isso é muita coisa. Mas quando a gente pensava que se passariam mais uns bons anos apenas para degustar o sabor tristonho de "Praire wind", Neil gritou alto com um novo disco poucos meses depois. Um grito de guerra. Um desabafo contra a administração Bush e uma polêmica onde parecia haver resignação.
Se "Praire wind" era quase um compêndio de sonhos, memórias e reflexões de Young, sobre a família, a carreira, a própria vida, agora marcados pela maré de poeira, medo e desconfiança detonada pelo 11 de Setembro, "Living with war" é um novo "Ohio", apaixonado na sua crueza, visceral na música, puro rock no violão, na voz, na cara, para acordar a América, indignado, sem firulas, um sacrifício vívido de canções como panfletos, como protesto. Se o mundo, ou pelo menos os Estados Unidos, não tem mais um Bob Dylan, tem o original Neil Young colocando a carreira a tapa. Os títulos das canções e músicas falam por sí próprios: "Let's impeach the President", "Lookin' for a leader", "The restless consumer", "America the beautiful" etc. Se "Ohio", do Crosby, Stills, Nash & Young era um líbelo contra a Guerra do Vietnã, esse "Living with war" é desabafo contra com o que fizemos com a paz, com o mundo, com os nossos próprios sentimentos, com as idéias, com a nossa frágil humanidade quando elegemos certos líderes de nações. Avante.

Publicado originalmente no
International Magazine Ed. 123
(Julho, 2006)
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