Prince
3121
J.M. Santiago
Quase dez anos depois de encerrada as obrigações contratuais com a Warner e a briga homérica com a gravadora, período em que Prince passou a tocar a sua carreira quase como uma artista independente, negociando a distribuição de seus discos, que "O" artista não lançava um disco tão bom quanto seu disco de "rertorno", em 2004, "Musicology". Naquela oportunidade, fechou parceria entre sua gravadora, a NPG Records, com a poderosa Sony, num contrato que alguns ac#1B74A9itavam quase que como uma volta àqueles grilhões de antes. Mas não. Apesar de Prince estar menos polêmico, menos sexual, e sim exuberantemente, mais musical e em grande forma, se deve tudo isso a maior maturidade para os negócios e até à forte orientação religiosa para qual se entregou, do que qualquer norma ou imposição de gravadora.
Prince descobriu que sua música precisava ser ouvida. Música sofisticada, criativa, sedutora e transgressora. Não a qualquer custo, mas ao menos acessível nas prateleiras, nas rádios. "Musicology" foi concebido para combater, beirando a uma guerra santa, a música ruim, sem qualidade artística, que infestou a mídia. Prince não teve medo de bater de frente, principalmente com alguns artistas de hip-hop, r&b e rap, que conseguiram arrancar da música negra suas características nobres e musicais, em troca do amontoado de palavrões e de uma batida estéril que ocupa quase toda a produção moderna do gênero. "O" artista recuperou a essência. Ensaiou a volta com a indicação ao "Rock' Roll Hall of Fame" e culminou, então, na festa de entrega dos prêmios Grammy. "Musicology" estava longe de ser um novo "Sign of the times", mas chegou perto de outros bons discos.
Prince reaproveitou seus melhores grooves, refez a sua mistura de funk, rock, soul, psicodelia, r&b e pop, experimentando novas sonoridades aqui e ali, e gerando um disco à altura da genialidade - sem perder o bom & mau humor de sempre, o excesso & a economia, tudo na medida certa, com um balanço matador. O que continua agora com o sucessor "3121". Como o anterior, não chega a ser uma obra-prima, mas é também um grande disco, forte e poderoso. Não é o divisor de águas que esperavam em vão, nem a segunda vinda do mestre como muitos apregoaram, muito menos a reclamação do trono, mas é, sim, uma autêntica confirmação da coroa para Prince.
"3121" é sexy, é negro, é balanço, é funk (o tradicional, não o carioca!), é de cair o queixo. É, porém, um pouco mais modesto em idéias se comparado ao diosco anterior. Prince parece um pouco mais preocupado em restabelecer a sua imagem definitivamente depois do sucesso de "Musicology". Investe em faixas mais dançantes, pegajosas, deixando pouquinho de lado a elaboração e os arranjos mais complexos. "3121" é para as paradas, para solidificar sua volta como "hitmaker" um músico relevante para as pistas e paras as vendas. É dessa forma que ele capricha no som da já controvertida "Black sweat" e na latina (de olho no mercadão!) "Te amo corazón", numa mistura de disco, funk, salsa e rock. A balada "Love", o gospel em falsetto "Satisfied", "Fury" e a orgânica "Beautiful, loved & blessed" são os detaques do disco. Prince pode não estar quebrando mais barreiras ou ultrapassando suas qualidades, mas é assim mesmo genial, relevante, dançante e um artista delicioso acima de qualquer suspeita. Que venha logo o próximo.

Publicado originalmente no
International Magazine Ed. 123
(Julho, 2006)
|