Ratos de Porão
Homem Inimigo do Homem
Ricardo Schott
Os Ratos de Porão podem até não perceber - se bem que quem conhece bem a banda sabe que tudo ali é bem mais pensado do que no caso de "ícones" do rock nacional, como o Charlie Brown Jr. - mas já fazem parte de um time de bandas que, não importa o que façam, sempre sofrerão comparações com os gols do passado.
Gordo (vocal) e Jão (guitarra), membros mais antigos do quarteto, têm cerca de quinze discos de carreira nas costas e já fizeram duas trilogias impotantíssimas para quem curte o misto punk + metal do grupo: Descanse em paz (1986), Cada dia mais sujo e agressivo (1987) e Brasil (1989); Carniceria tropical (1998), Guerra civil canibal (2000) e Onisciente coletivo (2002). A sorte é que, com o tempo, a banda só fez evoluir, até (embora isso seja um crédito pouco dado a eles) tecnicamente. Os anos passaram e o grupo permaneceu criando misturas impensáveis - os RDP praticamente inventaram o crossover punk-metal, ao mesmo tempo em que outras bandas faziam mais ou menos o mesmo nos Estados Unidos e Holanda, numa época em que não havia internet e, conseqüentemente, não havia muita troca de informação -, pulando de gravadora em gravadora e chegando, por vezes, na beira do inaudível (com João Gordo recorrendo a "defeitos especiais" como gravar vocais com a boca cheia de bolo).
Homem inimigo do homem, o disco novo, tinha tudo para causar surpresas estranhas aos fâs da banda. Aparentemente, é o álbum com maior estrutura de lançamento já feito pelo grupo, tendo saído pela grandona Deck Disc. O fato da banda estar na mesma casa de Pitty e Sorriso Maroto já poderia colocar pulgas nas orelhas de vários fâs, mas isso não significou praticamente nada: o encarte do álbum nem traz crédito para a direção artística, só para se ter uma idéia. Só para piorar um pouco, a produção parecia que iria rolar às mil maravilhas com Billy Anderson, o mesmo que ajudou o grupo a conceber o esporro de Carniceria Tropical, mas sofreu uma baita reviravolta: o produtor resolveu viajar e parou de responder telefonemas e e-mails (no blog do site da banda, www.ratos.com.br, João Gordo esclarece que Billy resolveu, sem avisar, ir produzir uma banda stoner argentina chamada Los Natas). A banda chegou a aventar a hipótese de convidar Alex Newport, parceiro de Max Cavalera no projeto Nailbomb, durante os anos 90, e produtor do disco mais fraco dos Ratos, Just another crime in massacreland (1994), mas as agendas não se cruzaram.
O grupo acabou entrando em estúdio com um produtor estreante, Bernardo Carvalho (da banda Are You God?) e o amigo Daniel Ganjaman cuidando da engenharia de som. Pois bem, que os fâs se acalmem: o disco pode até não alcançar os níveis de ferocidade de álbuns anteriores, mas é barulho dos bons, bem tocado e bem gravado, com riffs cuspidos em meio a batidas e quebradas - o grupo, que já meteu batidas de rap em um antigo clássico ("Aids, pop e repressão") jamais cairia mesmo na tentação de enfiar "renovações" em seu som. O padrão a ser seguido pelo RDP são porradarias pouco divulgadas por aqui, unindo punk, metal, hardcore, thrash e tudo o mais que possa fazer muito barulho. O resultado é que o álbum novo é uma pancadaria do começo ao fim, incluindo pedradas como "Pedofilia santa" e "Covardia de plantão", músicas mais "certinhas", com palhetadas metálicas, como "Expresso da escravidão" e hardcores agitadaços como "O equivocado", que espalha brasa para o crescente movimento emo ("Good Charlote é uma bosta, Simple Pan é uma bosta/Tudo o que você gosta é uma bosta").
Vale afirmar que Jão, que começou como vocalista e baixista, e já mandou toscos acordes em álbuns anteriores da banda, pode ser considerado um dos melhores guitarristas do Brasil na atualidade. E Boka, baterista do grupo desde RDP Ao Vivo (1992), é o grande responsável pelos momentos de pancaria extrema a que o grupo chega em muitos momentos - completa a banda o recém-chegado Juninho, ex-Point of No Return. As letras de Gordo - que faz qualquer pessoa esquecer de sua face "televisiva", graças à berraria intensa do novo álbum - parecem feitas agora mesmo, incluindo a esperteza de "Lucidez", o recado mal-educado de "DNA da pilantragem" e a mensagem ao Presidente, "Quem te viu...". Resultado: Homem inimigo do homem é uma ótima surpresa, que deve vingar.

Publicado originalmente no
International Magazine Ed. 124
(Agosto, 2006)
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