Rush
"30th. Anniversary World Tour"
Jorge Albuqueque
Há quem por aí não se lembre, mas o Rush foi formado nos idos de 1968. É, isso mesmo. A banda entrou na sua quinta (!) década de existência, mas não mostra sinais de abatimento. Power trio formado pelos tais Alexander "Alex Lifeson" Zivojinovich na guitarra, Gary "Geddy" Lee Weinrib no baixo e vocais e Neil Peart na bateria, só veio a gravar em 1973 - um compacto com a regravação de uma canção de Buddy Holly! No ano seguinte, porém, sua mistura crua de Led Zeppelin, Yes e Jimi Hendrix ficou mais elaborada e passou a chamar atenção. Compondo o próprio repertório, a banda começou a adquirir originalidade em meados da década de setenta e transformou-se na principal banda de rock do Canadá.
O rock pesado recebeu alguns contornos progressivos, temas futurísticos, investimento em tecnologia e parafernália de estúdio, shows monumentais e um poderoso som - e a marca registrada da voz esganiçada e mais tarde a tecladeira de Lee, a guitarra enxuta, sem firula e pesada de Lifeson, e letras inspiradas e a percussão pantagruélica de Peart. Nos anos 80, a música foi aos poucos ficando menos intrincada e mais pop, discos épicos com "Farewell to kings" e "Hemispheres" foram cedendo o espaço para álbuns um pouco menos inspirados e lotados de sintetizadores como "Signals" e "Grace under pressure".
O trio passou a vender milhões de discos pelo mundo e se estabeleceu nos anos de 1990 com um som pesado, atraindo inclusive a atenção da garotada "grunge" com discos como "Roll the bones" e "Test for echo". Foi quando duas tragédias abateram Neil - a primeira, a perda da filha num acidente de carro e, menos de um ano depois, a esposa, de câncer. A banda ficou quase seis anos em animação suspensa, Geddy Lee e Alex Lifeson lançaram seus dioscos solos, mas negando o fim do trio. No começo de 2002 chegou a notícia que a banda estava em estúdio para lançar seu 17º. Álbum, "Vapor Trails", e desde então o grupo continua na ativa, tendo visitado finalmente o Brasil no ano seguinte, devidamente registrado em CD e DVD no excelente "Rush in Rio".
Para comemorar trinta anos do lançamento do primeiro álbum, "Rush", em 1974, e os anos de estrada, os três decidiram pelo curioso lançamento de um EP, "Feedback", uma divertida coleção de músicas de gente como The Who, Yardbirds, Love, Cream e Buffalo Springfield, prestando um tributo às suas influências. O grupo ficou devendo assim, uma comemoração maior pelos anos de fidelidade "canina" dos seus fãs, agora devidamente recompensados no lançamento de "R30", o esperado DVD com o registro da série de shows que a trinca promoveu para comemorar os 30 anos de carreira.
O espetáculo selecionado para representar o "R30 - 30th Anniversary World Tour" foi gravado em 24 de setembro de 2004 em Frankfurt, na Alemanha. O primeiro disco traz o show na íntegra, moderno e empolgante como todos da banda, com o trio em grande forma, fazendo um inventário de décadas de sucesso e competência musical. É interessante o grupo abrir o concerto com um "medley" instrumental, lotado de riffs e melodias memoráveis, com as composições "Finding my way", "Anthem", "Bastilles day", "A passage to Bangkok", "Cygnus X-1" e "Hemispheres". Tudo capturado por nada menos que 14 (!) câmeras de alta-definição.
O show segue com as músicas "Tom Sawyer", "Subdivisions", "Force 10", "The spirit of radio", "Xanadu", "Roll the bones", "Red barchetta", "Dreamline" e "Working man", entre outras. A surpresa fica com a inclusão de "covers" do Who "The seeker"), Yardbirds ("Heart full of soul"), Eddie Cochran ("Summertime blues", imortalizada pelo Who) e Robert Johnson (pela versão do Cream para "Crossroads"), que estão presentes no EP "Feedback". Um delírio. Outra carta sacada da manga é a performance de "Between the wheels" do álbum "Grace under pressure", que não era tocada fazia mais de 20 anos.
A imagem é no formato 16:9 widescreen e entre as opções de áudio, o Dolby Digital 5.1 Surround Sound e PCM Stereo. Como se não bastasse, "R30" é completado por um segundo disco, recheada de guloseimas para os fãs, com entrevistas (com destaque para uma sensacional com Lee em 79, outra com os três em 1981, e uma com cada um em separado em 1990), mais os registros das performances, nos anos 70, para clássicos como "A farewell to kings", "Finding my way", "Circumstances" e "La Villa Strangiato", entre outras. O DVD ainda traz mais surpresas, com "easter eggs" espalhados. Um lançamento de primeira. Obrigatório. É o Rush se virando nos 30.

Publicado originalmente no
International Magazine Ed. 125
(Julho, 2006)
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