Ben Harper
"Both sides of the gun"
Jorge Albuquerque
Diferente da maioria dos novos artistas norte-americanos, Ben Harper não tem receio em tocar em assuntos sociais e temas mais delicados, temendo o rótulo de chato ou de "difícil" para as paradas. Até por que sua música não é uma ladainha e o rapaz manda bem na voz e no violão, puxado por um fiel público curioso e gente cada vez mais interessada na trova. Isso sem contar que já cativou uma audiência considerável nesses doze anos e nove discos lançados, todos elogiados pela crítica e coroados ao menos com um Disco de Ouro cada - o que o ajuda a manter um bom contrato com uma poderosa e eficaz gravadora (a Virgin). "Both sides of the gun" é seu novo disco, duplo, arrojado, ambicioso, onde dessa vez Harper decidiu fazer um levantamento das próprias decisões na carreira: um lado selvagem, viril, ácido, pesado, político, social, e noutro a verve romântica, calcada em canções passionais, delicadas, sensuais. Seja como for, a sua assinatura no violão Weissenborn continua intacta, a batida característica, aquele balanço funk & folk, está escancaradamente ainda mais soul e direta. As 18 faixas de "Both sides of the gun" inventariam em faixas inéditas, separadas por discos, o percurso da música e da prosa & verso de Harper, escancarando suas influências, quase como um tributo às suas raízes. Surgido nos anos 90 e, como grande parte da sua geração, batizado pelo signo da reciclagem, Harper mostra no novo álbum como sabe combinar influências que vão de Jimi Hendrix ao Hootie & the Blowfish, de Marvin Gaye a Bob Marley, de Led Zeppelin a James Brown. Isso já faria de "Both sides of the gun" um acontecimento.
Nascido na Califórnia, Harper cresceu embebido de blues, folk, soul, R&B e reggae. Na adolescência já chamava atenção por tocar com habilidade fora do comum a guitarra e o violão com a técnica do "slide". Depois de algumas poucas apresentações locais, Ben foi capturado por um olheiro de gravadora e assinou contrato em 1992. O título do CD de estréia já apontava para o que vinha por aí: "Welcome to the cruel world". Um disco coroado de elogios, que se repetiram com o político "Fight for your mind", de 95. Seguiram-se "The will to live" (que apresentou a sua compentente banda de apoio, The Innocent Criminals) e "Burn to shine", respectivamente de 1997 e 99. Nesse meio tempo trabalhou com Beth Orton, John Lee Hooker e o Gov't Mule, além de abrir shows do R.E.M., Radiohead, Metallica, Pearl Jam e Fugees. Em 2001 editou seu primeiro disco duplo "ao vivo" "Live from Mars". Uma parada estratégica de estúdio para burilar em material inédito, saiu de lá com o inspirado "Diamonds on the inside" que o estourou mundialmente. Para a surpresa de muitos, na contramão do sucesso, o seu próximo disco foi quase um projeto gospel ao lado dos veteranos do The Blind Boys of Alabama, no subestimado "There will be a light", de 2004. Depois de outro disco ao vivo ("Live at the Apollo"), os dois que passou compondo repertório inédito deu no que deu: "Both sides of the gun".
O lado acústico, cheio de emoção, belas harmonias na guitarra e no violão, é o que mais se aproxima das últimas produções autorais de Harper, com um destaque para as belíssimas "Morning yearning", "Waiting for you", "Never leave lonely alone", "More than sorry" e "Crying won't help you now". Com tempero, as músicas são salpicadas um pouco de música latina (a francesa, principalmente) e gospel é injetada para embalar o sentimento, como no bom instrumental de "Swet nothing serenade". Enquanto isso, para o outro disco Ben Harper reservou a eletricidade, a fúria, em canções como "Please don't talk about murder while I'm eating", a pesada "Serve your soul", "Engraved invitation" e "Get it like you like it", que escancara sua veia Faces e Rolling Stones. "Both sides of the gun", a música, é um tributo real aos seus ídolos Curtis Mayfield e James Brown, enquanto "Better way" é praticamente uma ode a Prince. Harper prova nos dois discos que é um músico, compositor e produtor versátil, competente, genial. Nem precisava. Todo mundo já sabia.
Ben Harper
"Both sides of the gun"
Rodrigo Sabatinelli
Mesmo debaixo de acusações de exagerado ecleticismo, por conta de seu envolvimento simultâneo com gêneros musicais variados, como o blues, a soul e a folk music, o R&B e o rock, o cantor, músico e compositor Ben Harper lança seu sexto disco de carreira, Both Sides Of The Gun (EMI Music). No álbum, duplo, ele se distribui em canções pesadas e brandas.
"É só pouco mais de uma hora de música, então não se trata de não editar meu trabalho ou megalomania de meio de carreira. A verdade é que, com essas músicas, os extremos estão mais polarizados do que já estiveram. Metade de Both Sides Of The Gun é tão cru e solto quanto tudo que já fiz, e a outra metade é o meu lado mais introspectivo e intimista", justifica ele, em seu site, afirmando que muito dessa sonoridade é fruto do aprendizado que teve quando esteve ao lado do grupo Blind Boys Of Alabama.
"Em There Will Be A Light, álbum dos Blind Boys, senti que havia crescido de forma sônica e criativa, resultado de um trabalho com pessoas que fazem isso há 50 anos. Foi como ir à escola e aprender tudo de novo", complementa.
Gravado em três meses no estúdio Dust Brothers, em Los Angeles, Both Sides Of The Gun é um disco carregado, o que se percebe em faixas como Black Rain, escrita e gravada espontaneamente no dia seguinte em que o furacão Katrina varreu a cidade. Mas o que importa mesmo é a boa e velha (como defendem alguns) pluralidade de estilos de Harper, que arrasa em Get It Like You Like It, um ostensivo rock estilo Stones, na jazz cool Way You Found e na típica Serve Your Soul.
Para fechar a tampa, Happy Ever After In Your Eyes, Morning Yearning e Waiting For You mostram a habilidade do compositor para escrever harmonias belíssimas, que se beneficiam com magníficos arranjos de piano e cordas, que complementam sua maneira única de tocar guitarra. É a resposta do velho Harper!

Publicado originalmente no
International Magazine Ed. 123
(Julho, 2006)
|