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Cranberries traz a Porto Alegre sua turnê de retorno


Depois de anos de revival do pop dos anos 1980, parece ter chegado a vez da década seguinte – pelo menos no roteiro de shows internacionais em Porto Alegre. Após um 2009 com Living Colour e Faith No More, 2010 promete Guns N’ Roses para março – mas antes, em 3 de fevereiro, a cidade verá outro hit dos anos 1990 ao vivo: os irlandeses do Cranberries, no Pepsi On Stage.



Se as caras taciturnas dos integrantes da banda na foto acima eventualmente não despertam lembranças mais significativas, basta recorrer à memória auditiva. Há um punhado de anos, canções como Linger, Dreams, Zombie, Ode to My Family, Free to Decide e Just my Imagination tocaram bastante nas rádios, dando aos Cranberries sucesso mundial num período em que o barulho do grunge já não chamava tanta atenção – e em que o toque descolado do britpop ainda estava por dominar a cena.



Ironicamente, Porto Alegre já teve uma amostra do som dos Cranberries, justamente na época em que a banda estava inativa. Foi em agosto de 2007, quando a vocalista Dolores O’Riordan veio ao Brasil divulgar seu primeiro disco solo, Are You Listening?, lançado naquele ano. Na ocasião, já fazia quatro anos que os Cranberries estavam de recesso, e era natural que Dolores – figura mais marcante do grupo, tanto pela voz peculiar como pela participação majoritária nas composições – tentasse e conseguisse voar sozinha.



Assim vinha sendo até meados do ano passado, quando Dolores, o guitarrista Noel Hogan, o baterista Fergal Lawler e o baixista Mike Hogan anunciaram que iriam voltar à estrada juntos – ao mesmo tempo em que a cantora lançou seu segundo CD individual, No Baggage. Sem carregar rancores do passado, eles têm dividido o repertório dos shows entre amostras do novo álbum de Dolores e novas leituras para antigos hits. Com idades entre 36 e 38 anos, os Cranberries podem não exalar o frescor de frutas novas – mas parecem dispostos a mostrar que suas criações não perderam todo o sabor.



O que é?



Cranberry é uma fruta mais frequente nos países do Hemisfério Norte, conhecida em português como uva-do-monte, ou oxicoco. Inicialmente, a banda dos irmãos Noel e Mike Hogan se chamava “The Cranberry Saw Us” (“a uva-do-monte nos viu”, literalmente). O sabor agridoce dos pequenos frutos vermelhos é uma metáfora perfeita para a melancolia melódica dos Cranberries irlandeses, mas a escolha do nome parece ir bem além da gastronomia. “The Cranberry Saw Us” é um trocadilho com “cranberry sauce” – nome de uma iguaria obrigatória nas festas de inverno europeias. O tal “molho de oxicoco” tem lugar próprio na cultura pop desde que John Lennon declamou o termo nos instantes finais da canção Strawberry Fields Forever (1967). Houve quem acreditasse que John dizia “I buried Paul” (“Eu enterrei Paul”), o que deu margem à teoria conspiratória segundo a qual Paul McCartney teria morrido nos anos 1960. Mas essa é outra história.



Mais fácil?



Linger, o maior sucesso do Cranberries, ganhou uma versão insólita em português. Em lugar do timbre melodioso da vocalista Dolores O’Riordan, a canção ganhou nova leitura na voz curta, sussurrada e derrapante da apresentadora de TV Angélica, entoando uma letra canhestra. A versão é assinada pelo compositor Dudu Falcão, também responsável por Somente o Sol, adaptação de I’m Not in Love (da banda inglesa 10cc) gravada por Deborah Blando em 2002. Se a Gente Se Entender nasceu para ser o hit do CD Angélica (2001) – não por acaso, a última incursão da apresentadora na música –, e de fato emplacou em algumas FMs, com seu refrão inesquecível: “Quem sabe se a gente se falasse / Fosse mais fácil entender / Bem mais fácil, é, mais fácil / Se a gente se entender”. Não viu ou não lembra? Então corra até o YouTube e aprecie o vídeo, em que a cantora encarna uma diva carismática e, ao mesmo, melancólica.



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